terça-feira, julho 15, 2008

Gritos Mortais

Gritos Mortais (Dead Silence / Shhhhh... / Silence, EUA, 2007 – 90 min.)

Cartaz: Aqui

Jamie (Ryan Kwanten) perde sua esposa de maneira violenta e misteriosa; inconformado com a morte dela, descobre que a causa pode estar ligada com um mistério do passado de sua família e… Bonecos.
O segundo projeto do diretor James Wan, depois do mega-sucesso “Jogos Mortais”, o que explica o título nacional tosco, não faz feio, pela mediocridade geral do gênero nos últimos anos e o enorme talento visual demonstrado.
As imagens são poderosas e arrepiantes, apostando em um medo pouco explorado, surpreendentemente, por realizadores de horror, que é o temor inconsciente das pessoas em relação a bonecos, principalmente os que são usados por ventríloquos em seus shows – que hoje soam anacrônicos e antiquados, mas como os bonecos me assustavam! E ainda assustam.
Procurando desta vez desenvolver uma trama mais linear, apostando nos flashbacks somente ocasionalmente, a narrativa segue em ritmo mais lento, buscando construir pouco a pouco o quadro para o espectador e colocando os elementos gradativamente. Uma direção de arte muito competente – os cenários são bem assustadores e proporcionam bons momentos e sustos – e fotografia em tons azulados e cores chapadas, com muita névoa, dão aquele ar de filme antigo que é agradável aos olhos e combinam com a história.
O toque de modernidade vem com as transições entre as cenas, bastante características e facilmente reconhecíveis por quem acompanhou a série “Jogos Mortais”. Me vêm à mente a passagem da câmera de um piso a outro, subindo, que ao chegar revela ser um segundo local distante do primeiro, mas que estão ligados pelos personagens, pois o assunto discutido no local anterior é o mesmo onde a câmera chega; muito inventivo e bacana. E isso acontece também com objetos de uma cena aparecendo na outra, fazendo a ligação.
E também, claro, como não podia deixar de ser, cenas de violência altamente gráficas, sangrentas e filmadas com estilo, outra marca registrada; e, ainda mais raro, na medida certa fazer você virar a cara, por causa do jeitão de filme antigo que eu mencionei antes. É meio chocante ver o sangue espirrando quando você espera que a câmera vire para o outro lado, como nos velhos tempos de Hitchcock e Frankenstein… Legal demais! A trilha sonora de Charlie Clouser (integrante do grupo de rock industrial Nine Inch Nails) é outro achado, complementando bem as cenas e trazendo uma pitada extra de macabro.
O elenco está bem razoável, embora a credibilidade da maioria dos atores fique prejudicada pelo fato de precisarem de maquiagem para mostrar sofrimento – Hollywood achar que esse povinho Barbie & Ken é o máximo me deixa embasbacado – com destaque absoluto para a Marion Walker da veterana Joan Heney, altamente classuda e bacana e a participação sempre divertida de Bob Gunton, como o patriarca da família Ashen.
No entanto, todo esse artesanato cinematográfico, trama interessante e cuidado com o suspense, este dentro do que é possível dentro de um filme de terror, é quase implodido completamente no terceiro ato.
Parece que chegaram para a equipe e disseram “olha, tá ficando comprido demais, não tem mais dinheiro, termina logo isso aê, pô!”. E eles fizeram exatamente isso, com uma correria sem sentido, conclusões apressadas e uma reviravolta final que não era surpresa para ninguém. Essa reviravolta parece bem no estilo vocês-fizeram-antes-e-pegou-agora-têm-que-fazer-de-novo-para-todo-o-sempre que acomete, por exemplo, o diretor M. Night Shyamalan depois de “O Sexto Sentido”.
Infelizmente, essa autofagia não é uma novidade para o fã; quantos e quantos filmes de terror começam muito bem, têm clima legal e jogam tudo no lixo ao final?
Entendam, a diversão é garantida, o filme é bom; fica o “mas…” registrado.

Elenco: Ryan Kwanten (Jamie Ashen), Amber Valletta (Ella Ashen), Donnie Wahlberg (Detetive Jim Lipton), Michael Fairman (Henry Walker), Joan Heney (Marion Walker), Bob Gunton (Edward Ashen), Laura Regan (Lisa Ashen), Dmitry Chepovetsky (Richard Walker), Judith Roberts (Mary Shaw), Keir Gilchrist (Henry jovem), Steven Taylor (Michael Ashen), David Talbot (Padre), Steve Adams (Detetive de 1941), Shelley Peterson (Mãe de Lisa),

Direção: James Wan; Roteiro: Leigh Whannell e James Wan (história) e Leigh Whannell (roteiro); Produção: Mark Burg, Gregg Hoffman e Oren Koules; Produção Executiva: Peter Oillataguerre e Scott Stuber; Trilha Sonora: Charlie Clouser; Direção de Fotografia: John R. Leonetti; Montagem: Michael N. Knue; Seleção de Elenco: Barbara Fiorentino, Linda Lamontagne, Rebecca Mangieri e Wendy Weidman; Design de Produção: Julie Berghoff; Direção de Arte: Anastásia Masaro; Cenografia: Christina Kuhnigk; Figurinos: Denise Cronenberg; Maquiagem: David LeRoy Anderson e Nicole Michaud (bonecos); Som: Randy Babajtis, Ken Kobett, Mike Olman, Lauren Stephens e Kelly Cabral; Efeitos Sonoros: Melissa A. Corns e David F. Van Slyke; Efeitos Especiais: Warren Appleby e Tim Barraball; Efeitos Visuais: Aaron Weintraub e Brianne Wells.

Classificação:
!!!

sexta-feira, maio 23, 2008

Mutilados

Mutilados (Severance / P45, ING/ALE, 96 min.)

Cartaz:
Aqui

Um grupo de funcionários de uma fábrica de armas (sorrisinho irônico) está em um ônibus, se dirigindo para uma cabana de caça no meio da floresta da Europa Oriental, como parte de um exercício de aproximação, dinâmica de grupo. No meio do caminho, o motorista, que não fala uma palavra de inglês, briga com a galera e os larga no meio da estrada.
Sem alternativa, o grupo vai andando e chega em uma cabana no meio do mato, que pode ou não ser o local para onde estavam indo; e, aos poucos, vão sendo atacados por um assassino ou assassinos misteriosos e têm que lutar para sobreviverem.
Uma pequena jóia do cinema de terror e suspense, misturando cenas sangrentas com altas doses de humor – negríssimo, diga-se de passagem – sem perder a mão durante o desenvolvimento da trama. Desde a abertura até o final, o diretor Smith tira tudo do roteiro e brinca de forma consistente com as convenções do gênero e a narrativa. Sem uma linha do tempo definida, praticamente todo o primeiro ato e metade do segundo são utilizados para mostrar cada um dos personagens, que possuem personalidades distintas e interessantes; nós nos importamos com eles quando a carnificina começa e torna tudo o que é mostrado ainda mais impactante, além de uma boa inversão de expectativas; nem tudo é o que parece e o roteiro foge dos lugares comuns em relação ao que está no inconsciente coletivo do apreciador do gênero.
Passado no paraíso do “torture porn” (sem os exageros ridículos da maioria das produções dessa linha, como “O Albergue”), a Europa Oriental, várias histórias de fundo são mostradas para dar alguma explicação para os acontecimentos; deixando para o espectador escolher a que melhor lhe convém, o diretor consegue mais uma surpresa ao deixar claro qual é a verdadeira somente no terceiro ato, que amarra legal a narrativa circular e ainda entrega um final irônico e inteligente. E, ainda, vai dando pequenas dicas para quem assiste sobre o tipo de confusão em que os protagonistas se meterão, com planos-detalhes de armadilhas de urso, partes do corpo mutiladas e outras coisinhas que eu não vou entregar aqui.
É tecnicamente muito bom, com planos bonitos e movimentos elegantes de câmera, diferente do que normalmente se faz, pelo menos em um exemplar tão sangrento, onde a suposta simplicidade de filmagem procura esconder falhas de planejamento de cena ou de orçamento; em mais uma decisão ousada, a maior parte das tomadas foi realizada com um ponto de vista de perseguidor, como se o espectador estivesse caçando os protagonistas. Esse artifício ajuda a criar um clima de suspense e tensão como poucas vezes eu vi recentemente.
Muito desse envolvimento se deve ao elenco escolhido, com alguns rostos conhecidos que incluem Toby Stephens (o vilão de “007 – Um Novo Dia para Morrer”), Laura Harris (da 2ª temporada da série “24 Horas”) e Tim McInnerny (o amigo casado com a deficiente de “Notting Hill”); mas a maioria é de independentes, inclusive um dos “musos”de David Lynch, Danny Dyer, dono do papel mais bacana, o de Steve, o chapadão, dono das melhores tiradas. Destaque ainda para Andy Nyman, como Gordon e sua mochila do Gato Félix; o que sai daquilo é impressionante.
Enfim, um filme inteligente, não é covarde, não enche o saco com ações estúpidas dos personagens, não fica tremendo a câmera o tempo todo, tem orgulho de sua verve canalha (as mocinhas tentando sair da armadilha é de rolar de rir) e ainda se dá ao luxo de tirar um sarro dos gurus de Administração tão em voga atualmente. Façam a garimpagem nas locadoras, cada minuto vale. E pense duas vezes antes de se enfiar em uma viagem de “integração de equipe” que seu chefe empurrar para você.

Elenco: Toby Stephens (Harris), Claudie Blakley (Jill), Andy Nyman (Gordon), Babou Ceesay (Billy), Tim McInnerny (Richard), Laura Harris (Maggie), Danny Dyer (Steve), David Gilliam (George), Juli Drajkó (Olga), Judit Viktor (Nadia), Sándor Boros (Motorista). Assassinos: Levente Törköly (Cabana), János Oláh (Lança-chamas), Attila Ferencz (Esmaga-cabeça), Bela Kasi (Cabeçada), Roland Kollárszky (Faca na Bunda), Péter Katona (Jogador de Pedras), Levente Lezsák (Mina Terrestre), Nick Greenall (Arma Grande).

Direção: Christopher Smith; Roteiro: James Moran (história) e James Moran e Christopher Smith (roteiro); Produção: Finola Dwyer e Jason Newmark; Co-produção: Alexandra Arlango, Andrew Hildebrand, Colleen Woodcock e Mark Wooley; Produção Executiva: Steve Christian, Michael Kuhn e Rosa Romero; Co-produção Executiva: Malcolm Ritchie e Jill Tandy; Trilha Sonora: Christian Henson; Direção de Fotografia: Ed Wild; Montagem: Stuart Gazzard; Seleção de Elenco: Williams Davies e Gail Stevens; Design de Produção: John Frankish; Direção de Arte: Louise Marzaroli e Lucinda Thomson; Cenários: Zsuzsa Mihalek; Figurinos: Stephen Noble; Maquiagem: Jan Sewell; Som: Peter Baldock, Paul Cotterell e Joe Henson; Efeitos Sonoros: Nick Baldock; Efeitos Especiais: Richard Darwin e Attila Torók; Efeitos Visuais: Phil Attfield, Simon Frame e Howard Watkins.

Classificação:
!!!!

1408

1408 (1408, EUA, 104 min.)

Nota: Se você ainda não assistiu o filme, este texto pode conter alguns spoilers (em português claro, “entregar” alguns pontos-chave do filme), leia por sua própria conta e risco, ok?

Cartaz:
Aqui

Um escritor famoso por criar livros onde desmistifica fenômenos paranormais, Mike Enslin (John Cusack) descobre um hotel em Nova York, o Dolphin, onde um dos quartos – o 1408 do título – possui um histórico assustador de suicídios, mortes naturais e estranhos acidentes. E o melhor, ninguém consegue durar mais do que uma hora dentro do lugar. Pressentindo que encontrou o capítulo principal de sua última empreitada, “10 Noites em Hotéis Mal-Assombrados”, ele força o gerente, Olin (Samuel L. Jackson) a lhe permitir passar a noite no mal-afamado quarto. E descobre que pode ter abocanhado mais do que seu ceticismo lhe permite agüentar.
Retirado de um conto de Stephen King, o filme não faz feio em recriar o clima de tortura psicológica presente no texto. Houve um bom trabalho de expansão da idéia inicial, que poderia dar quando muito um curta-metragem e foi bem desenvolvido pelos roteiristas (nada menos do que três profissionais), aproveitando cada grama de carisma e talento do seu protagonista, John Cusack. Depois de pelo menos uma década no piloto automático e interpretando a si mesmo, o ator teve uma ótima performance, mantendo o interesse do espectador em alta, mesmo porque ele está praticamente sozinho em cena durante três quartos da produção; e isso, meus amigos, é difícil para caramba de se conseguir. Acho que a última atuação com tanto tempo de tela de um ator sozinho em cena foi em “Náufrago”, com Tom Hanks – e ele ainda teve Wilson (a bola de vôlei, lembram?) para ajudar a segurar a onda.
Segundo filme do diretor sueco Mikael Hafstrom em Hollywood, depois do risível “Fora de Rumo”, uma bobagem de que até mesmo o tosco “A Força em Alerta 2” vence em tensão e suspense, demonstra que o talento demonstrado por ele no filme “Evil” indicado ao Oscar em 2004 – quando perdeu para “As Invasões Bárbaras” de Denys Arcand – não foi diluído ou perdido, como se poderia pensar. Com um ritmo narrativo excelente, planos perturbadores, ângulos de câmera inusitados e uma montagem interessante, o sueco conseguiu imprimir o mesmo senso de descida à insanidade que o conto possuía. Com uma construção lenta e gradual do poder demoníaco do quarto, o espectador, graças também a uma história de fundo plausível para o protagonista, embarca sem muito freio nos delírios do escritor atormentado e aceita sem muitos questionamentos as diversas maneiras com que o 1408 tenta “dobrar” o intruso.
Duas cenas em particular me impressionaram, pelo cuidado dos detalhes e o susto na hora certa: quando Cusack está na janela e pede ajuda ao habitante do prédio em frente e a tentativa do escritor de buscar sair do quarto pelo parapeito. Na primeira, filmada de maneira simples, o personagem chega a uma conclusão desagradável junto com quem assiste, comprovando a ambientação envolvente montada pelo diretor; e, na segunda, o plano aberto depois de alguns passos é arrepiante, bem como o detalhe do mapa do hotel mostrado na porta reforça de modo inteligente e sem enrolação a intenção de demonstrar a irrealidade causada pelo quarto e inteligência demoníaca do 1408.
Depois do próprio cômodo, Samuel L. Jackson em uma, praticamente, participação especial é o personagem mais fascinante do filme e domina com facilidade suas cenas, fazendo com perfeição as poucas falas expositivas presentes no roteiro e situando o espectador para a enormidade da encrenca que Enslin entrou de livre e espontânea vontade; ao mesmo tempo em que não podemos deixar de desejar que o protagonista ignore todos os avisos – senão não tem filme – Olin é crível e não demonstra, em nenhum momento, algum motivo escuso ou debochado para demover aquele “cliente” indesejável que não seja uma genuína preocupação com a segurança do escritor e de não querer provocar o quarto do Capeta. Da próxima, John, se Sam Jackson lhe diz para não fazer alguma coisa, siga a orientação dele, rapaz!
Mesmo com todas as qualidades apontadas acima, o filme não dá o passo necessário para se tornar memorável, justamente pelas limitações paradoxais de se contar com um grande orçamento para fazer um filme de terror. O estúdio e os engravatados se metem mesmo e isso se vê pela desnecessária, no contexto da trama, grandiloqüência da trilha sonora e de alguns efeitos especiais, estes inegavelmente de excelente qualidade. Mas que soam e nos fazem sentir que estão deslocados e fora de lugar. Enquanto o filme se mantém intimista e na seara das tomadas criativas (inclusive algumas bastante interessantes com espelhos, deliciosamente anacrônicas), “1408” sustenta e prende o interesse.
Na média (baixa) do cinema de gênero da atualidade, esta produção se destaca, pelo roteiro de razoável inteligência, uma dupla de atores talentosos e bem dirigidos e um vilão improvável. Em um dos diálogos, reproduzido literalmente do conto original, o escritor afirma que quartos de hotel são sinistros por sua natureza de transitoriedade e impessoalidade; quem viveu ali antes de você, usou o banheiro, dormiu naquela mesma cama, você não conhece nem sabe o estado mental, mas sente. E “1408” extrapola o sentimento normal de que esses aposentos têm uma vida própria.
Uma boa pedida, merece ser conhecido, embora tenha um efeito melhor quando revisitado, provavelmente. Da primeira vez que se assiste, pode-se não conseguir apreciar devidamente os valores do filme; porém, depois, conseguimos passar através do véu de puro entretenimento e vislumbrar questões importantes, como somente um bom filme de terror e horror consegue passar e sem apelar para cenas irritantes de tortura e sanguinolência sem sentido.

Elenco: John Cusack (Mike Enslin), Samuel L. Jackson (Gerald Olin), Tony Shalhoub (Sam Farrell), William Armstrong (Clay, o Advogado), Kim Thomson (Recepcionista), Drew Powell (Gerente Assistente), Noah Lee Margetts (Mensageiro), Isiah Whitlock Jr. (Engenheiro de Manutenção), Mary McCormack (Lily Enslin), Jasmine Jéssica Anthony (Katie Enslin), Lou Cariou (Pai de Mike).

Direção: Mikael Hafstrom; Roteiro: Matt Greenberg, Scott Alexander e Larry Karaszweski, baseados no conto “1408” de Stephen King; Produção: Lorenzo Di Bonaventura; Produtores Associados: Kelly Dennis, Antonia Kamalcoff e Jeremy Speckler; Produção Executiva: Harvey Weinstein, Bob Weinstein, Richard Saperstein e Jake Myers; Trilha Sonora: Gabriel Yared; Direção de Fotografia: Benoit Delhomme; Montagem: Peter Boyle; Seleção de Elenco: Elaine Granger; Design de Produção: Andrew Laws; Direção de Arte: Stuart Kearns, Doug J. Meerdink e Mark Raggett; Cenografia: Daniel B. Clancy e Marina Morris; Figurinos: Natalie Ward; Maquiagem: Luisa Abel, Victor DeNicola, Linda Grimes, Pauline Hayes e Suzanne Stokes-Munton; Efeitos de Maquiagem: Karl Derrick e Deborah Hyde; Som: Nigel Mills, Tim Cavagin, Craig Irving, Kevin McCue e Steve Single; Efeitos Sonoros: Nigel Mills e Steve Mayer; Efeitos Especiais: Paige Chaytor, Ian Corbould e Paul Corbould; Efeitos Visuais: David Dozoretz, Sean Farrow, Adam Gascoyne, Uel Hormann, Simon Leech, Ben Shepherd e Val Wardlaw.

Classificação:
!!!

Horror em Amityville

Horror em Amityville (The Amityville Horror, EUA, 2005 – 81 min.)

Cartaz:
Aqui

A família Lutz, liderada por George (Ryan Reynolds) e Kathy (Melissa George), se muda para uma enorme casa em Amityville, uma pechincha. O fato de um assassinato em massa ter ocorrido ali dentro não impediu o casal de comprar o imóvel, mas ambos se arrependem depois que estranhos eventos começam a ocorrer, colocando em risco a sanidade e a vida de todos.
Remake do sucesso de 1979, onde o mão-pesada Michael Bay resolveu modernizar a trama e utilizar a última palavra em efeitos visuais e especiais para contar a história do flagelo da família Lutz para o público atual. Para isso, trouxe o roteirista Scott Kosar, que já havia “modernizado” o clássico “O Massacre da Serra Elétrica” e deu a primeira oportunidade ao diretor de comerciais e clipes Andrew Douglas no cinema de longa-metragem. Até que ficou razoável.
Melhorando o original em suas principais falhas, que eram o ritmo arrastado e os efeitos especiais primários (além de arrumarem uma babá muito mais gostosa), infelizmente o remake caiu na mesma armadilha, que é a falta de senso comum dos personagens principais e um suspense frouxo, para dizer o mínimo. Ainda por cima, o roteiro trocou o emblemático espírito-porco Jodie, responsável por uma das cenas mais aterrorizantes que eu já vi, por uma menininha saída diretamente de algum terror asiático de quinta categoria; e inventou uma história de fundo para a casa que é de doer de tão forçada, com a prisão dos índios no porão, dirigida por um tal de Reverendo Ketcham, que são uma mera desculpa para ficar mostrando cenas de desmembramentos e torturas variadas e o fantasminha nada camarada da menina, onde os ótimos técnicos da KNB podem mostrar todo seu talento e só.
Como os Lutz são um bando de chatos e ainda por cima burros, que não saem da casa nem por decreto mesmo com a tonelada de motivos racionais e simples que se apresentam, a identificação do espectador fica prejudicada sobremaneira. Quando George, vivido preguiçosamente por Ryan Reynolds, começa a ficar cada vez mais influenciado pela casa demoníaca, ficamos torcendo para ele torcer o pescoço de todo mundo de uma vez para que possamos fazer outra coisa mais interessante, como assistir o jogo da seleção do Dunga ou a grama crescer.
No original, pelo menos, o espectador se importa com o que acontece com George, que aqui ficou reduzido a um psicopata bombadão com um machado, o que já não mete medo em ninguém. Ademais, o personagem do padre somente aparece para homenagear o original, já que não tem função nenhuma e entra e sai de cena como um foguete; antes, ficava justificada a presença do religioso pela fé da família, o que já não acontece aqui. Para piorar, Melissa George é gostosa demais para ter três filhos e nada faz além de chorar e correr para cima e para baixo.
Como fator positivo, o diretor tem certo estilo, com um visual bastante limpo e usa bem a tecnologia a seu favor, com bons ângulos, movimentos de câmera e tomadas interessantes. O passeio pelo porão é bacana, macabro e dá uns bons sustos; a cena do telhado ficou angustiante na medida certa e as passagens na casa de barcos se seguram bem.
No geral, um filme desnecessário e comum, que segue o padrão atual do gênero. Totalmente descartável, sem maior interesse, demonstrando a alarmante falta de idéias dos realizadores atuais. Se até um filme nada marcante está merecendo remakes, o que mais falta aparecer?

Elenco: Ryan Reynolds (George Lutz), Melissa George (Kathleen Lutz), Jesse James (Billy Lutz), Jimmy Bennett (Michael Lutz), Chloe Grace Moretz (Chelsea Lutz), Rachel Nichols (Lisa), Philip Baker Hall (Padre Callaway), Isabel Conner (Jodie De Feo), Brendan Donaldson (Ronald De Feo), Annabel Armour (Corretora de Imóveis), Rich Komenich (Chefe de Polícia), David Gee (Médico de Emergência), Danny McCarthy (Policial Greguski), Nancy Lollar (Bibliotecária), José Taitano (Stitch).

Direção: Andrew Douglas; Roteiro: Scott Kosar, baseado no roteiro de Sandor Stern e adaptado do livro de Jay Anson; Produção: Michael Bay, Andrew Form e Brad Fuller; Produtores Associados: Matthew Cohan e Stefan Sonnenfeld; Produção Executiva: David Crockett e Ted Field; Co-produção Executiva: Randall Emmett, George Furla, Paul Mason e Steve Whitney; Trilha Sonora: Steve Jablonsky; Direção de Fotografia: Peter Lyons Collister; Montagem: Roger Barton e Christian Wagner; Seleção de Elenco: Lisa Field; Design de Produção: Jennifer Williams; Direção de Arte: Marco Rubeo; Cenografia: Daniel B. Clancy; Figurinos: David C. Robinson; Maquiagem: Dominic Mango e Suzi Ostos; Efeitos de Maquiagem: Howard Berger, Gregory Nicotero e Jake Garber; Som: Kelly Oxford, Alan Rankin, Brad Sherman e Jon Taylor; Efeitos Sonoros: Kerry Ann Carmean, Michael Kamper e Karen Vassar; Efeitos Especiais: John D. Milinac; Efeitos Visuais: Sean Andrew Faden, Roger Guyett e Nathan McGuinness.

Classificação:
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O Massacre da Serra Elétrica

O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, EUA, 2003 – 98 min.)

Cartaz:
Aqui

Um grupo de jovens está a caminho de um show em Dallas, no Texas, quando quase atropelam uma moça que vaga, desnorteada, pela estrada. Depois de a pegarem, a garota revela estar em fuga, fica histérica ao ver que se aproximam de uma fábrica aparentemente abandonada e se dá um tiro na cabeça. O grupo então se vê cercado por uma família de loucos, liderados por Leatherface, um enorme assassino que usa uma serra elétrica para pegar suas vítimas. E começa o pesadelo.
Remake do clássico de 1974, onde o produtor Michael Bay mais uma vez coloca seu toque de Midas reverso para entregar um filmeco de horror horroroso. Como em “Horror em Amityville”, temos um estreante na função de diretor de longas, vindo também do mundo dos vídeos musicais, o alemão Marcus Nispel, confirmando a regra de que nem todo clipeiro é um David Fincher.
Seu filme, também com roteiro de Scott Kosar, do já citado “Amityville”, tenta recriar todo o clima doentio e aterrorizante de sua inspiração e falha miseravelmente, ainda que com o habitual apuro visual e efeitos de primeira linha. Só que uma maçã podre, toda maquiada e tratada no Photoshop, está podre, amigos. E a precária direção de arte não dá em nenhum momento a impressão de que a trama se passa em 1973, embora seja isso que a narração em off diga.
O roteirista, no afã de “modernizar” a obra, acrescenta toques aqui e ali, como a presença da moça da estrada e interesses românticos entre a protagonista e um mané, além de mais um casal e drogas e tira cenas seminais como a do jantar, um supra-sumo da tensão, apenas para dar uma desculpa ao seu diretor de jogar na cara da platéia doses generosas de sanguinolência... E quase tudo fora de plano, para evitar a temida classificação R, pode isso? A preparação cuidadosa e falta de escrúpulo do original é jogada no lixo, em nome de uma narrativa pobre e linear, mas bastante acelerada e, de acordo com os produtores, mais ao gosto da turba adolescente que freqüenta os cinemas atrás de filmes do gênero.
Temos muita correria, pancadaria, mulheres gostosas com trajes sensuais, tiroteios e sustos fáceis com acordes altos da trilha sonora. Além de nos obrigar a agüentar a extrema idiotice do grupo, com atitudes que nem mesmo uma criança de seis anos tomaria, enfiou goela abaixo da audiência uma resistência simplesmente extraordinária de alguns personagens, os quais agüentam um abuso físico incrível; principalmente o super Andy, papel de Mike Vogel e a deliciosa Erin de Jessica Biel, atriz de algum talento que deixou seus jeans apertados de cintura baixa e sua blusinha branca molhada fazerem o trabalho de atuação, com um fôlego de maratonista queniana. Pena também que o namorado da personagem da atriz, “interpretado” por Eric Balfour, seja a cara do Marcos Mion, com a agravante de não falar merdas engraçadas e ser um trouxa completo e emaconhado.
Mas nada supera o desperdício de um ícone do medo, o assassino enlouquecido Leatherface; sua aparição, entremeada por gemidos e uivos ridículos, enfraquece o enredo de uma forma tão absoluta que chega a causar gargalhadas. Um dos mais assustadores assassinos seriais da história virou um gordo de máscara com uma serra elétrica na mão e correndo atrás de menininhas e rapazotes. Vergonha! Vergonha! Vergonha!
Mesmo com uma ou outra ceninha bacana no porão e a família de Leatherface, um grupo de loucos de dar nó daqueles com uma boa caracterização, o remake, ou melhor, a reinvenção, é um desastre total e irrestrito. Se salvam o sempre bom R. Lee Ermey, perfeito e assustador como o xerife piradaço e a plástica irretocável de Biel.
O que me deixa ainda mais perplexo é o diretor e o roteirista do original, Tobe Hooper e Kim Henkel, terem chancelado esta abominação com créditos de produtores executivos.
Que a fúria de Leatherface recaia sobre vós, homens de pouca fé e muita ganância...

Elenco: Jessica Biel (Erin), Jonathan Tucker (Morgan), Erica Leerhsen (Pepper), Mike Vogel (Andy), Eric Balfour (Kemper), Andrew Bryniarski (Thomas Hewitt – Leatherface), R. Lee Ermey (Xerife Hoyt), David Dorfman (Jedidiah), Lauren German (A Caronista), Terrence Evans (Velho Monty), Marietta March (Luda May), Heather Kafka (Henrietta), Kathy Lamkin (Senhora no Trailer), Brad Leland (Bob), John Larroquette (Narrador).

Direção: Marcus Nispel; Roteiro: Scott Kosar, baseado no roteiro de Kim Henkel e Tobe Hooper; Produção: Michael Bay e Mike Fleiss; Co-produção: Joe Dishner, Tobe Hooper e Kim Henkel; Produtores Associados: Matthew Cohan e Pat Sandston; Produção Executiva: Jeffrey Allard, Andrew Form, Brad Fuller, Ted Field e Guy Stodel; Trilha Sonora: Steve Jablonsky; Direção de Fotografia: Daniel Pearl; Montagem: Glen Scantlebury; Seleção de Elenco: Lisa Fields; Design de Produção: Greg Blair; Direção de Arte: Scott Gallagher; Cenografia: Randy Huke; Figurinos: Bobbie Mannix; Maquiagem: Troy Breeding, Kelly Nelson e Carla Palmer; Efeitos de Maquiagem: Grady Holder, Gregory Nicotero e Chiz Hazegawa; Som: Scott Martin Gershin, Trevor Jolly, Jon Taylor e Brad Sherman; Efeitos Sonoros: Jon Title, Mark Allen e Paul Menichini; Efeitos Especiais: Rocky Gehr; Efeitos Visuais: Nathan McGuinness e Jason Schugardt.

Classificação:
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Wishcraft - Feitiço Macabro

Wishcraft – Feitiço Macabro (Wishcraft, EUA, 2002 – 97 min.)

Cartaz:
Aqui

Cartaz Alternativo: Aqui

Cara meio nerd, Brett Bumpers (Michael Weston), recebe um pacote pelo correio. Dentro, tem uma caixa antiga, contendo um troço estranho; uma carta explica ao rapaz que o conteúdo da caixa é um amuleto que concede três desejos ao seu possuidor, alertando para tomar cuidado com o que deseja. Apaixonado por Sam (Alexandra Holden), a quem dá aulas particulares, Brett deseja ficar com ela. Quando isso acontece, nosso herói fica sem saber como agir. Nesse meio tempo, um mascarado começa a atacar os alunos mais populares da escola, matando-os cruelmente. Sem saber se as mortes têm a ver com seu amuleto, Brett acaba tendo que enfrentar o assassino, que está atrás de sua amada por motivos desconhecidos.
Um exemplar do gênero que até tem boas idéias, a premissa é muito legal e a abertura promete, com boa ambientação e uma música mais moderninha, com um personagem misterioso usando uma máquina de escrever, um toque de anacronismo, mas funciona. Porém, como sói acontecer, não as desenvolve com competência e se mostra um bom jeito de jogar fora uma hora e meia de vida; pelo menos, não dá câncer como o cigarro. Espero que não, pelo menos.
As tentativas de originalidade são ofuscadas pelos clichês, que se amontoam na tela a uma grande velocidade. Filmes que se passam no colegial estadunidense são a nova “Comedia Dell’Arte”, com todos os arquétipos presentes: a líder de torcida linda, gostosa e de bom coração; o atleta popular, obviamente namorado da líder de torcida e que odeia, sem qualquer razão aparente, o nerd bacana; os amigos do atleta popular, a maioria do time dele, um bando de idiotas e seu respectivo séquito de namoradas bonitas, gostosas e burras, sempre amigas da líder de torcida; o nerd bacana e que tem uma queda pela líder de torcida e o amigo inseparável do nerd, uma máquina de despejar piadinhas infames. Todos, ainda por cima, interpretados por atores de vinte e muitos se passando por teens. Algo que não facilita a identificação do espectador, pela sensação de irrealidade que um elenco assim causa, ainda mais quando são maus atores.
De todos, o pior para mim foi o amigo inseparável, Howie; irritante e com piadas que não funcionam, o alívio cômico saiu pela culatra sem dó. Além disso, os ataques do assassino são mal encenados, com zero suspense e uma conclusão que se enxerga a quilômetros de distância. Verdade seja dita, a escolha de armas do vilão chama a atenção pela originalidade, como na cena da bola de boliche, mas a realização canhestra joga por terra a intenção; os efeitos visuais simplesmente não estão à altura e a câmera faz questão de se afastar no último momento, tirando um dos poucos prazeres de quem assiste esse tipo de filme, que é a carnificina.
Para piorar, desperdiça dois ícones pop do elenco em participações mínimas e sem sentido, casos de Meat Loaf (o Robert Paulsen de “Clube da Luta”) como o xerife e de Zelda Rubinstein, a inesquecível Tangina da série “Poltergeist”, no papel da legista irônica e desbocada.
No fim, quando a identidade do assassino é descoberta, que confesso ter sido uma surpresa, mais uma vez o filme joga no lixo a revelação e descamba para uma perseguição básica e com todos os clichês possíveis, como por exemplo o da chave do carro não ligar o veículo e os indefectíveis closes de machados, com a exceção da participação especial de um anão de jardim.
Como se pode ver, o terror não teve vez nenhuma e temos ao invés uma comédia involuntária já que, para deixar a areia ainda mais movediça, o filme se leva a sério, mesmo com as bolas de boliche, pênis de touro e anões de jardim. Uma lástima.

Elenco: Michael Weston (Brett Bumpers), Alexandra Holden (Samantha Warren), A. J. Buckley (Howie), Sara Downing (Desiree), Huntley Ritter (Cody), Alexandra Breckenridge (Kristie), Evan Jones (Eddie), Charlie Talbert (Jimbo), Louis Mustillo (Diretor Dombrowski), Austin Pendleton (Sr. Turner), Meat Loaf (Sparky Shaw), Zelda Rubinstein (Legista).

Direção: Danny Graves e Richard Wenk; Roteiro: Larry Katz; Produção: Larry Katz e Jeanne Van Cott; Co-produção: Dara Weintraub; Produção Executiva: Norm Waitt; Trilha Sonora: J. Peter Robinson; Direção de Fotografia: Suki Medencevic; Montagem: Tim Board; Seleção de Elenco: Fern Cassel; Design de Produção: Michael Wylie; Direção de Arte: Kevin Constant e Katherine Smith; Cenografia: Elizabeth M. Burhop; Figurinos: Julia Caston; Maquiagem: Tammy Ashmore, Tammy Ashcroft e Patrícia Gundlach; Efeitos de Maquiagem: James Conrad, Gloria Conrad e Randy Westgate; Som: David Bartlett, Robby Bartholomew, John Dunn e Stanley Kastner; Efeitos Sonoros: David Bartlett; Efeitos Especiais: Joseph P. Mercurio e Vincent Montefusco; Efeitos Visuais: Bill Coffin e Dan Schmit.

Classificação:
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quarta-feira, agosto 08, 2007

A Noite dos Mortos-Vivos

A Noite dos Mortos-Vivos (The Night of the Living Dead / Monster Flick / The Night of Anubis / The Night of the Flesh-Eaters, EUA, 1968 – 96 min.)

Cartaz: Aqui

Cartazes Alternativos: Aqui , aqui , aqui e aqui

Barbra (Judith O’Dea) vai visitar o cemitério onde seus pais estão enterrados, com seu irmão Johnny (Russell Streiner). De repente, a dupla é atacada por um homem muito estranho e Johnny é ferido. Desesperada, Barbra corre sem direção e vai parar em uma casa de fazenda abandonada que acaba se tornando a única esperança dela e de um grupo de pessoas, liderados por Ben (Duane Jones); à medida que o tempo passa, fica claro para os sobreviventes que seus atacantes são pessoas mortas, as quais por algum motivo misterioso se levantaram dos túmulos com uma predileção por carne humana.
Um dos filmes seminais do gênero, que redefiniu o papel dos zumbis para o espectador, desde a ambientação até o estilo de movimento e predileção, digamos, alimentar dos monstros. Presentes no cinema desde os primórdios, os mortos-vivos finalmente se separam da visão preconceituosa que até então vigorava, sempre relacionada aos primitivos praticantes de vodu que queriam se vingar dos civilizados, para se tornarem uma força da natureza, já que a razão dos acontecimentos jamais é explicada.
Realizado de forma totalmente independente, o filme foi lançado em poucos cinemas e praticamente esquecido pelo público; até que se tornou um dos mais projetados nos drive-ins, em sessões sempre à meia-noite e foi redescoberto para virar um clássico, muito imitado pelos realizadores atuais.
O estilo semi-documental, com ritmo um pouco arrastado – principalmente nas cenas entre os ataques dos zumbis, prejudicado pelo elenco fraco (onde Judith O’Dea é a mais irritante) praticamente formado por amadores, a maioria amigos do diretor e do roteirista, além de colaboradores como o açougueiro, que forneceu os restos animais de graça em troca de participar do filme – e a pobreza da produção são fartamente superadas, pela inventividade dos realizadores e sua óbvia paixão pelo material.
A abordagem tensa e sem concessões ao politicamente correto, que não se furtou de utilizar vísceras reais e uma maquiagem impressionante para a época, deu um senso de pesadelo poucas vezes repetido. Romero se mostra um bom diretor nesse sentido, injetando realidade na premissa completamente absurda. A montagem é correta, com bons cortes e a fotografia, dessaturada e em preto e branco, é muito bem utilizada para a construção de suspense, claramente influenciada pelo expressionismo e bem crua e suja; longe do estilo “turma da praia” dominante na época, antecipando as tendências e ladeando com, por exemplo, “Bullitt”, do mesmo ano. Posicionando a câmera de maneira não intrusiva e com bons ângulos, Romero puxa o espectador para o cenário e é particularmente eficiente ao retratar o modo impiedoso e irracional dos monstros de buscar suas vítimas, reforçado pelo andar sempre lento e olhar vidrado.
Uma boa sacada foi o uso de peças jornalísticas para situar o espectador, com o rádio e a televisão, onde o tom sério dos apresentadores destoa da destoa do estado mental dos personagens, constantemente no limite. Não há uma distinção clara entre os zumbis e os humanos, já que algumas ações dos protagonistas são tão questionáveis quanto de seus algozes, gerando cenas viscerais e genuinamente assustadoras. Como exemplos, a tentativa de fuga com o caminhão que tinha tudo para dar errado e dá; os ataques no porão; a reunião de forças-tarefa para lidar com o problema dos zumbis – leia-se grupos de extermínio – e a constante animosidade entre Ben e Harry Cooper (Karl Hardman).
Características do cinema de Romero, a crítica social e a inversão de valores ante os conflitos também se fizeram presentes, pela ousadia de ter um protagonista negro e de não poupar crianças e mulheres de destinos horríveis, além de permear o desenvolvimento da trama com baixos instintos. Lembrem-se de que era 1968 e a tensão racial nos EUA estava muito presente. Ainda, o tratamento dado às mulheres estava em estágios menos desenvolvidos, com as mesmas sempre relegadas ao segundo plano; a contra-cultura ainda estava em gestação e a liberação de costumes não estava tão forte fora das grandes cidades. “A Noite dos Mortos-Vivos” foi um soco no estômago dos americanos; foi refilmado, mais como uma atualização, em 1990, dirigida pelo constante colaborador de Romero, o maquiador e mestre de efeitos Tom Savini.
Foi muito influente no surgimento de um novo estilo, chamado “splatter” ou terror-que-espirra, pela violência mostrada na tela e a falta de pudor em se apoiar em cenas sangrentas para enojar o espectador e provar os pontos desejados pelos realizadores. O esforço coletivo valeu a pena. Contando ainda com um final impactante e irônico, a produção se segura bem até hoje, mesmo com alguns defeitos e é obrigatória para qualquer fã do gênero que se preze, principalmente por ter sido proibida no Brasil e permanecer inédita em nossos cinemas.
Teve ainda mais três seqüências, também dirigidas por Romero, que ampliaram o universo apresentado aqui. São elas: “Dawn of the Dead – O Despertar dos Mortos”, de 1978; “Day of the Dead – O Dia dos Mortos”, de 1983 e, mais recente, “Land of the Dead – Terra dos Mortos”, de 2004.

Elenco: Duane Jones (Ben), Judith O’Dea (Barbra), Karl Hardman (Harry Cooper), Marilyn Eastman (Helen Cooper / Zumbi), Keith Wayne (Tom), Judith Riley (Judy), Kyra Schon (Karen Cooper / Cadáver na Escada), Charles Craig (Apresentador do Telejornal / Zumbi), S. William Hinzman (Zumbi do Cemitério), George Kosana (Xerife McClelland), Frank Doak (Cientista), Bill “Chilly Billy” Cardille (Repórter de Campo), Russell Streiner (Johnny), George A. Romero (Repórter de Washington), John Russo (Repórter Militar de Washington / Zumbi na Casa), Phillip Smith (Membro da força-tarefa / Zumbi), Randy Burr (Membro da força-tarefa / Zumbi), A.C. McDonald (Membro da força-tarefa / Zumbi), Samuel R. Solito (Membro da força-tarefa / Zumbi), Mark Ricci (Cientista de Washington), Lee Hartman (Repórter / Zumbi), Jack Givens (Zumbi), Rudy Ricci (Zumbi), Paula Richards (Zumbi), John Simpson (Zumbi), Herbert Summer (Zumbi), Richard Ricci (Zumbi), William Burchinal (Zumbi), Ross Harris (Zumbi), Al Croft (Zumbi), Jason Richards (Zumbi), Dave James (Zumbi), Sharon Carroll (Zumbi), William Mogush (Zumbi), Steve Hutsko (Zumbi), Joann Michaels (Zumbi), Ella Mae Smith (Zumbi).

Direção: George A. Romero; Roteiro: George A. Romero e John Russo; Produção: Karl Hardman e Russell Streiner; Trilha Sonora: Domínio Público; Direção de Fotografia: George A. Romero; Montagem: George A. Romero e John Russo; Maquiagem: Bruce Capristo e Karl Hardman; Efeitos de Maquiagem: Vincent J. Guastini; Som: Marshall Booth e Gary Streiner; Efeitos Sonoros: Karl Hardman; Efeitos Especiais: Tony Pantanello e Regis Survinski.

Classificação: !!!!

Nota festiva do blogueiro: Amigos leitores, comemoro com esta a centésima postagem!!! Sim, já são cem filmes de terror e suspense comentados aqui! Um brinde para nós!!!!!!

quinta-feira, julho 19, 2007

Alone In The Dark - O Despertar do Mal

Alone In The Dark: O Despertar do Mal (Alone In The Dark, CAN/EUA/ALE, 2005 – 96 min.)

“O Mal desperta.”

Edward Carnby (Christian Slater) pertencia a uma agência governamental especializada em fenômenos paranormais, de onde foi expulso por razões obscuras. Agora um investigador independente, Edward busca no mundo inteiro artefatos de uma civilização antiga chamada Abkani. Quando estranhos eventos começam a ocorrer, somente a antropóloga Aline (Tara Reid) pode ajudá-lo a desenrolar uma trama que sugere serem as lendas Abkani sobre criaturas demoníacas de outra dimensão, paralela à nossa, muito próximas da realidade; e, inclusive, tiveram influência no misterioso passado do detetive.
Olha, é difícil escrever sobre um “filme” como este. Baseado, mal e porcamente, em um videogame de grande sucesso no início da década de 90, de onde tirou, praticamente, apenas o título e o nome dos personagens principais, busca misturar conceitos mostrados em “Alien”, “Hellboy” e “Predador” com terror rasteiro e, claro, que o produto final não podia ser nada além de indigesto, para dizer o mínimo.
Atirando para todos os lados, o roteiro não causa mais do que alguns bocejos e demonstra totalmente sua intenção de seguir uma fórmula, pensando assim: se nossas influências foram bem-sucedidas, basta colocar tudo no mesmo balaio que teremos a receita do sucesso instantâneo. É o Miojo (com o devido respeito ao alimento, que matou muita fome minha na vida) cinematográfico por excelência.
Só que não é tão fácil assim criar um filme do gênero. Para começar, o diretor escolhido é o canhestro alemão Uwe Boll, que vem construindo uma “carreira” adaptando videogames para a tela grande – cometeu ainda os dois “House of the Dead”, a seqüência de “Dungeon Siege” e “Bloodrayne” - e não tem a menor noção do que seja uma composição ou movimento de câmera de qualidade; viciado em cortes rápidos, usa ângulos e monta cenas até interessantes, porém vazios e (d)efeitos visuais e especiais poluem o quadro o tempo todo. Assistir algo com a assinatura dele é de doer. Ainda, para deixar tudo ainda mais irritante, desvia a câmera na hora das mortes ou cobre tudo com uma fotografia tão escurecida que fica difícil perceber o que está acontecendo; poxa, nem mesmo a sanguinolência a gente tem para se divertir um pouco!
Isso ocorre também pela total falta de competência na construção de suspense ou tensão, com o envolvimento dos espectadores para com os personagens e os eventos mostrados na tele muito próximo de zero; o samba do crioulo doido que os roteiristas inventaram é tão sem sentido que fica até difícil de acompanhar. O que um professor maluco, órfãos, implantes biológicos, civilizações antigas, um detetive durão, uma cientista gostosa, agentes do governo com coletes à prova de balas com músculos e criaturas invisíveis que atacam os humanos têm em comum? Estão todos neste filme!
Nesse ponto, falando das atuações, Slater, sempre carismático, faz o que pode com um personagem tosco e sem qualquer outra idéia para resolver as situações que se apresentam a não ser correr, dar porrada, atirar, dizer frases estúpidas ou explodir as coisas, não necessariamente nesta ordem; Tara (hum, que nome, hein) Reid – de “American Pie” - cada vez mais confirma ser um rostinho bonito com um corpo lindo e, e, e... é isso. Sua cientista, que usa óculos para comprovar sua competência acadêmica e faz beicinho para ler os complicados relatórios do museu, não serve para nada a não ser enfeitar o campo e dar um interesse romântico para o herói. Dorff, a última parte do tripé de atores “famosos” para chamar público, deixa muito claro que seu interesse no personagem é o contra-cheque e dá uma interpretação preguiçosa e clichê até a última bala de sua metralhadora; triste para um ator com tanto potencial e que já apresentou performances memoráveis.
Para encerrar, aguardem, que em 2008 teremos a seqüência, também dirigida por Uwe Boll. Um raio cai duas vezes... Pelo menos, em Hollywood e enquanto os DVDs continuarem vendendo.
Só consigo sentir pena. “Alone in the Dark” é um dos melhores jogos que eu já brinquei, recheado de atmosfera, inteligência e sustos para dar e vender. Quem quiser ver uma adaptação de games de terror que faz jus à fonte, assistam “Silent Hill”, clique aqui para ler a crítica deste blogueiro que vos fala, que obteve resultados bem melhores.

Elenco: Christian Slater (Edward Carnby), Tara Reid (Aline Cedrac), Stephen Dorff (Comandante Richard Burke), Frank C. Turner (Sam Fischer), Matthew Walker (Professor Lionel Hudgens), Will Sanderson (Agente Miles), Mark Acheson (Capitão Chernick), Darren Shalavi (John Dillon), Karin Konoval (Irmã Clara), Craig Bruhnanski (Xerife), Kwesi Ameyaw (Policial Adams), Dustyn Arthurs (Edward jovem), Catherine Lough Haggquist (Krash), Ed Anders (James Pinkerton), Sarah Deakins (Linda) Daniel Cudmore (Agente Barr), Françoise Yip (Agente Cheung), Ho Sung Pak (Agente Marko), Mike Dopud (Agente Turner), Brendan Fletcher (Motorista de Táxi), Donna Lysell (Sarah Fischer), Ona Grauer (Agente Feenstra), John Fallon (Agente Yonek), Rebekah Postey (Sophie), Robert Bruce (Barnes), Dean Redman (Agente Richards), Antonio Maiurano (Agente Tony).

Direção: Uwe Boll; Roteiro: Elan Mastai, Michael Roesch e Peter Scheerer; Produção: Shawn Williamson; Produtores Associados: Frederic Demey, Dan Sales, Philip Selkirk, Jonathan Shore, Jörg Tittel e Max Wanko; Produção Executiva: Uwe Boll, Dan Clarke e Wolfgang Herold; Co-produção Executiva: Bruno Bonnell e Harry Rubin; Trilha Sonora: Reinhard Besser, Oliver Lieb, Bernd Wendlandt e Peter Zweier; Direção de Fotografia: Mathias Neumann; Montagem: Richard Schwadel; Seleção de Elenco: Maureen Webb; Design de Produção: Tink; Direção de Arte: Peter Stratford; Cenografia: David Birdsall; Figurinos: Maria Livingstone; Maquiagem: Lise Kuhr, Connie Parker e Sanna Seppanen; Efeitos de Maquiagem: Bill Terezakis; Som: Jochen Engelke, Tobias Fleig, Wolfgang Herold e Marco Raab; Efeitos Especiais: John Sleep; Efeitos Visuais: Doug Oddy, Geoff D.E. Scott, Max Wanko e Bojan Zoric.

Classificação: !


domingo, junho 10, 2007

A Casa dos Maus Espíritos

A Casa dos Maus Espíritos (House on Haunted Hill, EUA, 1959 – 77 min.)

“Uma casa mal-assombrada, uma noite que eles jamais esquecerão!”

Um excêntrico milionário, Frederick Loren (Vincent Price), convida cinco pessoas totalmente desconhecidas entre si para se juntarem a ele e sua esposa, Anabelle (Carol Ohmart), para comemorarem o aniversário dela.
Até aí, nada demais, exceto o fato de que os convidados nunca encontraram com a aniversariante ou seu anfitrião. Porém, outras características tornam tudo mais estranho – e perturbador; primeiro, o cenário da festa é uma casa isolada, considerada mal-assombrada e onde diversas mortes ocorreram, como o aterrorizado e bebum dono da casa, Watson Pritchard (Elisha Cook Jr., habitué de filmes de terror baratos na década de 50 e 60) mais do que rapidamente esclarece aos outros companheiros; segundo, cada um dos convidados receberá a quantia de dez mil dólares, se sobreviverem a uma noite na casa, que ficará trancada e sem saída para os que se dispuserem a ficar depois da meia-noite e todos estão, de uma forma ou de outra, desesperadamente precisando de dinheiro; e, por último, o casamento entre Frederick e Anabelle não parece ser exatamente harmonioso.
Assim, a caixa Nora (Carolyn Craig), o piloto de provas Lance (Richard Long), a jornalista Ruth (Julie Mitchum, irmã de Robert Mitchum, em um dos cinco filmes que participou na carreira) e o psiquiatra David (Alan Marshal), além do já citado Watson, terão a pior noite de suas vidas e onde nada é o que parece...
Um filme interessante que dá uma outra visão do subgênero old dark house, contando com uma boa ambientação em uma casa de design mais moderno e original, fora do esquema do casarão vitoriano de praxe; efeitos especiais bacanas, principalmente o esqueleto e as cenas de assassinato, mais sangrentas; história original, sendo mais um thriller do que um filme de terror e um elenco acima da média, capitaneado por Price no auge da forma, abusando de sua figura simpática e sinistra ao mesmo tempo – sua narração irônica e com ameaça em cada frase é ótima. “She is so amusing / Ela é tão divertida” – e a beleza de Carol Ohmart, encarnando a perfeita vamp do imaginário popular, linda e fatal.
A montagem certinha e o ótimo uso de luz e sombra deixa toda a experiência melhor do que se poderia imaginar, dado o período em que foi feito.
O mérito vai, principalmente, para a direção inventiva do famoso William Castle, pioneiro do gênero depois do ciclo da Universal nos anos 30 e 40 e que se especializou em amedrontar a platéia com produções baratas e divertidas. Castle adorava brincar com a audiência nos cinemas, tendo inventado muitas ações bacanas para potencializar o efeito dos seus filmes, como o sistema “Odorama”, que soltava um cheiro nauseabundo durante a projeção. Para “A Casa”, Castle inventou o “Emergo”, que era um esqueleto fluorescente que saía de uma caixa ao lado da tela, em uma das cenas cruciais, e passava pelas cabeças dos espectadores (tiveram que parar depois de pouco tempo, pois a molecada levava estilingues e tentava derrubar o esqueleto quando este aparecia, com pedrinhas, balas, pipocas e o que mais estivesse à mão. Adolescentes sempre são adolescentes...). Fez grande sucesso nas bilheterias e inspirou Hitchcock para fazer o super-clássico “Psicose”.
Hoje, serve mais como curiosidade para fãs, já que envelheceu mal e parece irremediavelmente datado, com os penteados, roupas, trilha sonora exagerada e argumentos que atualmente soam anacrônicos e inverossímeis, como aquele blá-blá-blá de histeria, que o bom doutor não pára de arrotar o tempo todo. Embora a diversão permaneça intacta e nem se perceba o tempo passar, já que ele é curtinho e não enrola, indo direto ao ponto.
Foi refilmado em 1999, com muito mais grana e muito menos talento.

Elenco: Vincent Price (Frederick Loren), Carolyn Craig (Nora Manning), Richard Long (Lance Schroeder), Elisha Cook Jr. (Watson Pritchard), Carol Ohmart (Anabelle Loren), Alan Marshal (Dr. David Trent), Julie Mitchum (Ruth Bridgers), Leona Anderson (Sra. Slydes), Howard Hoffmann (Jonas Slydes).

Direção: William Castle; Roteiro: Robb White; Produção: William Castle; Produtor Associado: Robb White; Trilha Sonora: Von Dexter (tema central, “House on Haunted Hill” composto por Richard Kayne e Richard Loring); Direção de Fotografia: Carl E. Guthrie; Montagem: Roy V. Livingston; Direção de Arte: Dave Milton; Cenografia: Morris Hoffman; Maquiagem: Jack Dusick e Gale McGarry; Som: Ralph Butler, Jerry Irvin e Charles G. Schelling; Efeitos Especiais: Herman Townsley.

Classificação: !!!

segunda-feira, junho 04, 2007

Prelúdio Para Matar

Prelúdio Para Matar (Profondo Rosso / Deep Red / The Hatchet Murders / Dripping Deep Red, ITA, 1975 – 126 min.)

Em um teatro, a sensitiva Helga (Macha Meril), acompanhada do psicanalista Giordani (Glauco Mauri) e do cientista Bardi (Piero Mazzinghi), faz uma palestra onde demonstra seus poderes de telepatia; de repente, a moça se sente mal e afirma que um assassino está presente na platéia e irá matar de novo. Visivelmente abalada, o show se encerra e Helga volta para sua casa, prometendo escrever quem é o assassino, pois as impressões mentais já se estabilizaram e ela sabe a identidade.
Lá, pressente que não está sozinha e é assassinada brutalmente. Da praça em frente, o pianista Marcus (David Hemmings, de “Blow-Up”), morador do mesmo prédio de apartamentos, testemunha o crime e corre para tentar salvá-la; porém, chega tarde demais para evitar a morte da moça. Com a curiosidade despertada por uma misteriosa figura com capote que viu se afastando do lugar e por um quadro que desapareceu da parede, Marcus, com a ajuda da repórter Gianna (Daria Nicolodi) vai fazer de tudo para chegar ao fundo do mistério, que ainda deixa uma trilha de corpos pelo caminho e carrega uma ameaça nada fútil à sua própria vida.
Grande thriller da década de 70, realizado por um dos diretores / autores mais originais e talentosos do gênero, o italiano Dario Argento. Dono de uma técnica impecável e um grande compositor de imagens, Argento é o fundador de um sub-gênero dentro do horror, o chamado “giallo”. “Giallo”, em italiano, significa “amarelo”, que é a cor utilizada por editores, nos anos 50 e 60, nas capas de publicações baratas com histórias de crimes e terror recheadas de assassinatos e muito sangue; inspiração que o diretor segue à risca e ainda coloca seu toque muito pessoal nos trabalhos que realiza. Com a carreira iniciada em 1969, Argento fez muitos “giallos”, mas somente começou a acrescentar o sobrenatural a partir de seu próximo filme, “Suspiria”, de 1977.
A marca registrada dele é o uso inventivo e delirante da steady cam (câmera de mão) e muitos POVs (tomadas de ponto de vista), com closes de mãos enluvadas, olhos e objetos inanimados; inclusive, em quase todos os filmes quando aparecem as mãos do assassino, ele próprio o interpreta. Além dos aspectos técnicos, outra coisa que chama a atenção é a total falta de pudor em mostrar a violência e usá-la como elemento narrativo. Em “Prelúdio”, por exemplo, temos tiros, punhaladas, cuteladas, água quente (!!!) e decapitações, mostradas em todos os detalhes nos assassinatos cometidos na trama.
Justamente por esse pendão mais gráfico e explícito no uso da violência, seus filmes são impiedosamente picotados por censores e guardiões da moral (e por executivos que querem faturar uns trocados a mais baixando a censura), tornando-os ainda mais fragmentados do que o “normal” e dificultando bastante a compreensão das tramas pelos espectadores. Felizmente, pude assistir a versão integral (com exceção de alguns segundos de uma decapitação, que se perderam para sempre com as tesouras raivosas pelo mundo) e deu para curtir bastante. Claro que temos uma horrorosa dublagem em inglês, sem sincronia nenhuma e com muitas passagens simplesmente ignoradas pelos dubladores, em que temos até cinco minutos seguidos de diálogos em italiano, sem dublagem e sem legendas; e isso acontece em diversos trechos, tirando um pouco do prazer de assistir. Nada que prejudique muito, afinal o que realmente importa, pelo menos ao vermos um legítimo Argento, são as imagens.
Quanto ao filme em si, temos muitas qualidades, como um elenco empenhado e interessante, capitaneado pelo inglês David Hemmings, com sua cara de Paul McCartney e a boa atriz Daria Nicolodi, namorada do diretor na época e muito bem como a repórter pentelha. A investigação do crime transcorre com fluidez (e alguns furinhos no roteiro), num crescendo de elementos e muitas surpresas, onde praticamente todos os personagens, com exceção do pianista, podem ser considerados como suspeitos. Embora a trama possa ser considerada como batida, o diferencial é o toque do diretor. Muitos movimentos de câmera e ângulos inusitados; a fotografia mais etérea, junto com uma cenografia bem diferente, que reforçam a sensação de pesadelo; as marcas registradas estão todas aqui; os efeitos de maquiagem do mestre Carlo Rambaldi; alguns truques com espelhos e bonecos e a crueza da encenação dos ataques do assassino formam um conjunto de dar nos nervos.
Coroando o espetáculo, uma música inquietante e nervosa do grupo Goblin, que se tornaria um parceiro habitual do diretor e pontuando as cenas mais violentas e de perturbação emocional que fazem parte do roteiro com perfeição.
Como nem tudo são flores, o ritmo narrativo é lento demais em algumas passagens e cansa, pois a duração da projeção (mais de duas horas) pedia um pouco mais de gás, além dos exageros tipicamente italianos de uma parte do elenco, principalmente o superintendente e a sensitiva.
Não é um filme digerível com facilidade por qualquer público, mas vale a visita e tem que ser conhecido por qualquer apreciador de cinema, que verá um dos gênios da arte em grande forma. Argento já mencionou em entrevistas e documentários que este é o seu favorito; acho que ele sabe do que está falando, não é mesmo?

Elenco: David Hemmings (Marcus Daly), Daria Nicolodi (Gianna Brezzi), Gabriele Lavia (Carlo), Macha Meril (Helga Ulmann), Eros Pagni (Superintendente Calcabrini), Giuliana Calandra (Amanda Righetti), Piero Mazzinghi (Bardi), Glauco Mauri (Professor Giordani), Clara Calamai (Martha – Mãe de Carlo), Aldo Bonamano (Pai), Liana Del Balzo (Elvira – empregada de Amanda), Geraldine Hooper (Massimo Ricci), Furio Meniconi (Rodi), Fulvio Mingozzi (Agente Mingozzi), Nicoletta Elmi (Olga – filha de Rodi), Jacopo Mariani (Carlo jovem), Vittorio Fanfoni (Policial tomando notas), Dante Fioretti (Fotógrafo da polícia), Lorenzo Piani (Policial das digitais), Salvatore Puntillo (Policial), Piero Vida (Policial gordo), Dario Argento (As Mãos do Assassino).

Direção: Dario Argento; Roteiro: Dario Argento e Bernardino Zapponi; Produção: Salvatore Argento; Produção Executiva: Cláudio Argento; Trilha Sonora: Giorgio Gaslini e o grupo Goblin (Walter Martino, Fabio Pignatelli e Claudio Simonetti); Direção de Fotografia: Luigi Kuveiller; Montagem: Franco Fraticelli; Design de Produção: Giuseppe Bassan; Cenografia: Armando Mannini; Figurinos: Elena Mannini; Maquiagem: Giuliano Laurenti, Giovanni Morosi e Nicla Palombi; Som: Nick Alexander, Mario Faraoni e Eugenio Fiori; Efeitos Especiais: Germano Natali e Carlo Rambaldi.

Classificação:
!!!!

Boletim Extraordinário sobre a Série Amityville

SERVIÇO DE UTILIDADE PÚBLICA

Vou deixar registrados os nomes das seqüências picaretas que saíram em resultado do sucesso de “Terror em Amityville”, como serviço de utilidade pública e para evitar desperdício de tempo e dinheiro. Assisti, é claro, a todas, principalmente na adolescência e nas madrugadas insones. Mas não recomendo a experiência para ninguém. São elas:

“Amityville: A Casa do Medo”, de 1983 – já comentada aqui, pois veio de graça quando comprei a parte 2. Assisti e comentei no estrito dever de ofício (para mim é questão de honra comentar todos os filmes da minha coleção; quanto aos outros, me dou o direito de escolher se merece comentário ou não), portanto não riam da minha cara e ainda por cima foi a responsável pelo resto da “série” ser produzida para a TV, ou então, lançada direto em vídeo;

“Amityville: A Fuga do Mal”, de 1989 onde um abajur da casa original toca o puteiro (!). O aparelho elétrico até tem um design interessante, mas fica nisso;

“A Maldição de Amityville”, de 1990, onde um grupo de jovens passa a noite na casa, agora abandonada, embora a mesma tenha explodido na terceira parte. Pode isso, juiz? Espero que não, mas como fizeram acho que vale;

“Amityville 1992: Questão de Hora”, de 1992, onde o relógio da casa original toca o puteiro (!!!), embora seja o melhorzinho, com bom clima;

“Amityville: A Nova Geração”, de 1993, onde um espelho (!!!!) da casa original é responsável por mais destruição e, como cereja no bolo,

“Amityville: Casa de Bonecas”, de 1996, onde uma casa de bonecas com a forma da casa original toca o puteiro (!!!... Ah, desisto, essa doeu).

Deu para perceber a “originalidade” das produções, certo? Fuja delas como o Diabo da cruz!

Amityville 2: A Possessão

Amityville 2: A Possessão (Amityville 2 / Amityville 2: The Possession, EUA/MEX, 1982 – 100 min.)

“Na noite de 5 de fevereiro de 1976, George e Kathleen Lutz fugiram de sua casa em Amityville, Nova York. Eles sobreviveram! Seu pesadelo chocou platéias no mundo inteiro em “Terror em Amityville”. Mas, antes deles, uma outra família morou nesta casa e foram assediados pelo Mal. Eles não tiveram tanta sorte... Esta, é a sua história!”

Uma família, os Montelli, formada por: o pai abrutalhado Anthony (Burt Young, da série “Rocky”); a mãe sofrida Dolores (Rutanya Alda); a gracinha Patricia (Diane Franklin); o filho mais velho Sonny (Jack Magner) e as crianças Jan (Erika Katz) e Mark (Brent Katz) se muda para uma casa em Long Island para tentar pacificar os ânimos e melhorar a vida em comum, pois o pai tem uma tendência a usar os punhos e isso causa conflitos com todos, em especial com Sonny.
Por um tempo, tudo parece que vai se resolver a contento, mesmo com algumas explosões ocasionais do papai bonzinho. Embora no porão tenha uma abertura, uma passagem, pouco convencional e que a mãe imediatamente sente não ser nada boa; e está certa, pois é uma porta de entrada para o inferno. Temerosa do que aquilo possa representar para a frágil harmonia familiar, busca o auxílio do padre Adamsky (James Olson, ótimo).
A interferência do padre causa uma agitação dos espíritos da casa (construída sobre um antigo cemitério indígena), que possuem o corpo de Sonny. O rapaz então começa a praticar atos de confronto a Deus (como dar uma trepadinha amiga com a irmã bonita e gostosa) e semear cada vez mais fúria dentro da casa, até que um dia pega uma arma e mata todo mundo. Convencido de que o rapaz sofre de possessão demoníaca, o padre Adamsky faz tudo que pode para salvar a alma de Sonny, num exorcismo terrível e de conseqüências imprevisíveis.
Na verdade, não é uma seqüência, mas sim uma prequel (pré-continuação) do primeiro filme, onde foi feita uma dramatização dos assassinatos cometidos por Ronnie De Feo e considerados como causa da perturbação espiritual e maléfica da casa.
O diretor Damiani (em sua primeira e única produção falada em língua inglesa) fez um grande trabalho, com tomadas inventivas, efeitos especiais bem razoáveis (a maquiagem da possessão é impressionante), indo fundo nas perversões do roteiro e criando muito clima e suspense, valorizadas pela trilha sonora muito bem feita, mais uma vez, por Lalo Schifrin.
O elenco está empenhado e bom na média geral, com destaques absolutos para dois atores. O primeiro é James Olson, como o padre, que passa totalmente a emoção necessária e credibilidade para o espectador se envolver com seus esforços para convencer a polícia, e a direção da Igreja, da seriedade dos eventos ocorridos em Amityville e da influência demoníaca do caso. O outro é Jack Magner, que estranhamente sumiu do mapa e nunca mais filmou. Uma pena, pois seu retrato do atormentado Sonny é muito bom e potencializa o efeito no público da possessão sofrida pelo personagem; suas cenas dos ataques e manifestações da força maligna são ótimas (com muitos sorrisos dementes) e ele leva bem a terrível dramatização da morte da família toda, que deve ter sido uma dureza, emocionalmente, já que o personagem não demonstra qualquer traço de hesitação em meter bala na família, sem poupar nem mesmo as crianças pequenas, com uma crueldade daquelas.
E aí chegamos ao que realmente choca. Nos dois primeiros atos, a destruição e o caos campeiam, além de ter algumas das ações mais repugnantes que já vi. A cena onde Sonny, já possuído pelo espírito maléfico, seduz sua irmã é de prender na cadeira e se torcer de raiva. A porta no porão é apropriadamente suja e a aparição da entidade que depois persegue e pega Sonny (com uma ótima tomada longa em POV, com ângulos angustiantes e inusitados) dá frio na espinha.
O único problema é o final, com uma ambientação sub-Exorcista bem fraquinha, apesar dos efeitos legais da manifestação do demônio, com bastante sangue e nojeiras. Mas, felizmente, não consegue estragar o todo, que consegue a proeza de ser melhor do que o original, com ritmo mais acelerado, efeitos bacanas e atores melhores, além de nem traço da gritaria generalizada que irritava bastante.
Vale a visita, amigos leitores.

Elenco: James Olson (Padre Adamsky), Jack Magner (Sonny Montelli), Burt Young (Anthony Montelli), Rutanya Alda (Dolores Montelli), Diane Franklin (Patricia Montelli), Moses Gunn (Detetive Turner), Ted Ross (Sr. Booth – advogado), Erika Katz (Jan Montelli), Brent Katz (Mark Montelli), Leonardo Cimino (Monsenhor), Danny Aiello III (Maqueiro 1), Gilbert Stafford (Maqueiro 2), Petra Lea (Sra. Greer), Martin Donegan (Detetive Cortez), John Ring (Chefe de Polícia), Peter Radon (Assistente do Monsenhor), Lawrence Bolen (Celebrante do Funeral), John Clohessy (Policial 1), Hollis Granville (Policial 2), Frank Patton (Policial 3), Kim H. Ornitz (Policial 4), Lindsay Hill (Policial 5), Rudy Jones (Jardineiro), Ken Smith (Médico da Prisão), Tony Devon (Legista).

Direção: Damiano Damiani; Roteiro: Tommy Lee Wallace e Dardano Sacchetti, baseados no livro “Assassinato em Amityville”, de Hans Holzer; Produção: Dino de Laurentiis, Stephen R. Greenwald e Ira N. Smith; Produtor Associado: José Lopez Rodero; Produção Executiva: Bernard Williams; Trilha Sonora: Lalo Schifrin; Direção de Fotografia: Franco Di Giacomo; Montagem: Sam O’Steen; Design de Produção: Píer Luigi Basile; Direção de Arte: Ray Recht; Cenografia: George DeTitta Jr.; Figurinos: William Kellard; Maquiagem: Joe Cuervo e Werner Sherer; Efeitos de Maquiagem: John Caglione Jr. e Stephan Dupuis; Som: Stan Bochner e Dick Vorisek; Efeitos Especiais: Glen Robinson.

Classificação: !!!

Terror em Amityville

Terror em Amityville (The Amityville Horror, EUA, 1979 – 118 min.)

“Pelo amor de Deus, saiam!”

Recém-casados, George (James Brolin) e Kathy Lutz (Margot Kidder) estão à procura de uma casa para chamarem de lar. Ele, ainda, gostaria de um imóvel com espaço suficiente para poder transferir seu escritório – ele tem uma firma de consultoria em tipografia – e transformar assim uma despesa em lucro. Ambos visitam uma casa em Amityville, Long Island, no estado de Nova York, espaçosa e com casa de barcos e de hóspedes mais por desencargo de consciência, já que imaginam um preço exorbitante.
Para surpresa deles, o preço é bastante convidativo. Isso se deve, como explica a corretora, pelo fato de que a casa foi palco de um assassinato medonho (e real. O assassino está preso até hoje), onde o jovem Ronnie De Feo matou os pais e quatro irmãos com tiros de rifle, dizendo-se influenciado por “vozes demoníacas”. Com a atitude moderna de quem não se abala por bobagens, o casal fecha o negócio e se muda com os três filhos do primeiro casamento de Kathy e assumidos por George, confiantes em uma nova etapa de prosperidade e felicidade.
Porém, pelos 28 dias seguintes, enfrentam problemas que não podem ter outra explicação além de influência maligna, como móveis que são jogados de um lado para o outro, paredes sangrando e perturbações de personalidade e físicas. Com a ajuda do padre Delaney (Rod Steiger), os Lutz tentam lutar contra o que quer que esteja perturbando suas vidas, mas são obrigados a abandonar a casa antes que percam suas vidas.
Terror convencional que foi turbinado, na década de 70, pelo hype originado com a publicação do livro-reportagem em que é baseado, escrito por Jay Anson, sustentáculo da tese que os eventos que são mostrados no filme são reais e arrasou nas bilheterias no mundo todo. Claro que a tese do livro gerou polêmica, pois a única fonte do escritor, de talento inegável, foi o casal Lutz, embora ele sustente que buscou confirmação com a Igreja e com a polícia dos supostos fatos. Bem, vamos ao filme.
O diretor optou por desenvolver a trama de forma lenta (até demais, diga-se de passagem), aumentando a carga de tensão gradativamente e com problemas progressivamente piores para a família enfrentar, o que não é algo necessariamente ruim e diferencia o filme dentro do gênero, mais afeito a porra-louquices e sangreiras, apesar da falta de lógica de toda a situação. Não tem muito sustento se ver de frente a portas que são arrombadas de dentro para fora, infestações de moscas, olhos na janela (brrr!), levitações, sentimentos assassinos; não querer fugir dali rapidinho antes que a coisa vá para o vinagre não é natural, viu, família Lutz e soa forçado. O roteiro, ainda, joga personagens na trama e estes não fazem absolutamente nada, como o padre auxiliar Bolen e o sargento Gionfriddo. Este último é o que de mais ridículo; segue o padre Delaney e George para todo lado e não faz absolutamente nada. Para que seguir os caras então?
O quadro não é ajudado com a opção pela histeria da maior parte do elenco, em especial Steiger, que berra suas falas a maior parte do tempo a plenos pulmões, confundindo intensidade com gritaria e a falta de alcance dramático das crianças, todas péssimas e a atuação chorosa de Kidder (a Lois Lane da trilogia cinematográfica “Superman”) como Kathy. Quem salva a lavoura é James Brolin, com uma barba impressionante e uma atuação minimalista e forte como o protagonista George; ele sempre domina a cena assim que entra no aposento e dá credibilidade aos conflitos internos do seu personagem, que poderia facilmente descambar para a caricatura, já que é o mais perseguido pela presença demoníaca.
Conforme dito acima, o diretor Rosenberg exagerou no freio de mão puxado, mas constrói cenas de grande impacto visual (as paredes sangrando e a descoberta do quarto secreto todo pintado de vermelho onde Ronnie De Feo fazia seus rituais de magia negra sendo os pontos altos) e consegue imprimir uma tensão muito boa durante toda a projeção. Com uma mão mais do que bem-vinda da soturna e arrepiante trilha sonora do mestre argentino Lalo Schifrin (indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro pelo trabalho), com uso interessante de coros infantis num resultado de gelar a espinha e pontuando com brilhantismo os momentos mais intensos, que infelizmente são poucos.
Mesmo com todos os defeitos, é um terror sério e sóbrio, onde a casa se torna um vilão de respeito, com muitas tomadas inquietantes das agora famosas janelas que lembram olhos. Não deixem de assistir, vale a pena para qualquer fã que se preze.
Foi refilmado em 2005 (ainda não vi, então não sei se foi uma caca ou se ficou bom) e gerou nada menos do que oito seqüências, das quais apenas a segunda pode ser realmente considerada como tal e é muito boa; as outras seis (campeãs de exibição nas madrugadas para tapar buracos de programação durante a década de 90) simplesmente pegaram carona e utilizaram a casa como mote para as tramas cada vez mais forçadas e ridículas.

Elenco: James Brolin (George Lutz), Margot Kidder (Kathy Lutz), Rod Steiger (Padre Delaney), Don Stroud (Padre Bolen), Murray Hamilton (Padre Ryan), John Larch (Padre Núncio), Natasha Ryan (Amy Lutz), K.C.Martel (Greg Lutz), Meeno Peluce (Matt Lutz), Michael Sacks (Jeff), Helen Shaver (Carolyn), Amy Wright (Jackie), Val Avery (Sargento Gionfriddo), Irene Dailey (Tia Helena), Marc Vahanian (Jimmy), Elsa Raven (Sra. Townsend), Ellen Saland (Noiva), Eddie Barth (Agucci), Hank Garrett (Barman), James Tolkan (Legista), Carmine Foresta (Policial na casa), Charlie Welch (Carpinteiro), Jim Dukas (Vizinho).

Direção: Stuart Rosenberg; Roteiro: Sandor Stern, baseado no livro “Horror em Amityville”, de Jay Anson; Produção: Elliot Geisinger e Ronald Saland; Produção Executiva: Samuel Z. Arkoff; Trilha Sonora: Lalo Schifrin; Direção de Fotografia: Fred J. Koenekamp; Montagem: Robert Brown; Seleção de Elenco: Jane Feinberg, Mike Fenton e Judy Taylor; Direção de Arte: Kim Swados; Cenografia: Robert Benton; Maquiagem: Stephen Abrums e Christine Lee; Som: Robert W. Glass, Richard Tyler e John Wilkinson; Efeitos Sonoros: Stephen Hunter Flick; Efeitos Especiais: Dell Rheaume; Efeitos Visuais: Allen Blaisdell e William Cruse.

Classificação:
!!

Boneco Assassino

Boneco Assassino (Child’s Play, EUA, 1988 – 87 min.)

“Você vai desejar que fosse apenas faz-de-conta.”

Após uma perseguição implacável, o assassino serial Charles Lee Ray (Brad Dourif) se vê encurralado em uma loja de brinquedos pelo policial Mike Norris (Chris Sarandon), que acaba ferindo o bandido gravemente; sentindo que está morrendo, Ray pega um boneco Good Guy (Bonzinho) e, jurando vingança contra o parceiro que o abandonou, Eddie (Neil Giuntoli) e ao policial, com a ajuda de cânticos vodu, Ray imprime sua alma no brinquedo e faz a loja explodir.
Não muito tempo depois, Karen (Catherine Hicks), uma jovem viúva, está quebrando a cabeça para arrumar um jeito de dar o boneco Bonzinho que seu filhinho Andy (Alex Vincent) quer de aniversário; a solução se apresenta quando um vagabundo aparece e vende a ela o boneco tão desejado. Adivinhem onde o tal vagabundo arrumou o brinquedo? Exatamente, na loja que explodiu.
Andy, claro, adora o presente e começa imediatamente a brincar com Chucky, que lhe pede favores como ligar a TV para ele assistir o noticiário e levá-lo até o esconderijo de Eddie. Quando mortes começam a ocorrer, ninguém acredita em Andy, que conta a todos que o boneco fofinho é Charles Lee Ray e ele está com sede de vingança...
Um pequeno clássico dos anos 80, responsável pelo lançamento do terceiro membro do grande triunvirato do terror recente: Jason Voorhees, Freddy Krueger e Chucky. O boneco acabou se tornando uma figura icônica no cinema de horror moderno, paradoxalmente apostando em um medo que vem de longe; a impressão infantil de que os bonecos e bonecas têm uma vida própria afastados de seus donos, na direção oposta a que foi, por exemplo, a série “Toy Story”. Outro aspecto interessante é que esse medo primordial foi pouco explorado pelos realizadores do gênero (de cabeça, me lembro de “Magia”, de 1979, com Anthony Hopkins; e, mais recentemente, “Jogos Mortais”, além de, é claro, a emblemática cena do palhaço em “Poltergeist”).
Obviamente, para apreciar totalmente a experiência, o espectador tem que embarcar na premissa absurda do filme, pois é realmente complicado de aceitar um boneco tão pequeno causando tanto estrago e com tanta força física. Mas, a partir do momento em que se aceita isso, a diversão é garantida.
O grande responsável por tornar Chucky tão querido pelos fãs é a interpretação primorosa de Brad Dourif, emprestando um jeito tão canalha e sarcástico ao boneco que se torna difícil não querer que o vilão se dê bem, principalmente pela falta de cuidado do roteiro em desenvolver os antagonistas. Eu sou suspeito para falar, pois simplesmente abomino atores infantis no gênero, mas Alex Vincent até que se dá relativamente bem no papel de Andy, fazendo com que nos importemos com seu destino, diferente de Hicks e Sarandon; ambos não conseguiram dar mais peso aos seus personagens estereotipados, embora o segundo domine bem suas cenas, como de hábito.
A direção de Holland é bastante competente, criando bom timing de suspense (quase uma hora de projeção se passa antes que tenhamos certeza de que é o brinquedo mesmo que está tocando o puteiro), com ótimas tomadas de POV (ponto de vista) e ângulos baixos, usando os clichês a seu favor. As cenas dos sustos são filmadas com gosto, dando um bom tempero a algo batido. Por exemplo, todo mundo sabe que quando a gente mata um vilão ele não está realmente morto ainda, sempre tem tempo para mais um ataquezinho... O jeito com que o diretor lida com esse tipo de cena é o que conta, e Holland cumpriu muito bem seu papel.
Nos demais aspectos técnicos, os bons efeitos especiais ganham destaque, com uma maquiagem competente e o uso de um dublê anão para as cenas de Chucky andando e perseguindo suas vítimas, o que acaba gerando um certo humor involuntário.
O sucesso gerou uma franquia, que conta com mais quatro exemplares. As duas primeiras seqüências são uma forçada de barra só, com histórias ridículas e meras desculpas para o boneco assassinar a galera; já os dois últimos são os mais bacanas, por brincarem constantemente com o status de Chucky como celebridade e partirem para a auto-paródia explícita.

Elenco: Catherine Hicks (Karen Barclay), Chris Sarandon (Mike Norris), Alex Vincent (Andy Barclay), Brad Dourif (Charles Lee Ray / Voz de Chucky), Dinah Manoff (Maggie Peterson), Tommy Swerdlow (Jack Santos), Jack Colvin (Dr. Ardmore), Neil Giuntoli (Eddie Caputo), Juan Ramirez (Vagabundo), Alan Wilder (Sr. Criswell), Raymond Oliver (Dr. Morte), Aaron Osborne (Enfermeiro), Tyler Hard (Mona), Ted Liss (George), Roslyn Alexander (Lucy), Ed Gale (Chucky) e Edan Gross (voz de Chucky amistoso).

Direção: Tom Holland; Roteiro: Don Mancini (história) e Don Mancini, John Lafia e Tom Holland (roteiro); Produção: David Kirschner; Produtora Associada: Laura Moskowitz; Produção Executiva: Barrie M. Osborne; Co-produção Executiva: Elliot Geisinger; Trilha Sonora: Joe Renzetti; Direção de Fotografia: Bill Butler; Montagem: Roy E. Peterson e Edward Warschilka; Seleção de Elenco: Sharon Bialy e Richard Pagano; Design de Produção: Daniel A. Lomino; Cenografia: Cloudia; Figurinos: April Ferry; Maquiagem: Michael Hancock e Marina Pedraza; Som: Rick Kline, Donald O. Mitchell, Kevin O’Connell e John Riordan; Efeitos Sonoros: Clayton Collins; Efeitos Especiais: Richard O. Helmer; Efeitos Visuais: Peter Donen.

Classificação: !!!

2001 Maníacos

2001 Maníacos (2001 Maniacs!, EUA, 2005 – 87 min.)

“Você é o que ELES comem!”

Os três amigos Lee (Jay Gillespie), Nelson (Dylan Edrington) e Cory (Matthew Carey) estão loucos para sair de viagem para o spring break (mais para baixo eu explico o que é isso), principalmente depois da espinafrada épica que levaram do professor Ackerman (participação especial de Peter Stormare), o que os deixou com uma bela tarefa para quando o período longe da universidade terminar.
Por isso, o trio quer que suas pequenas férias sejam o mais legal possível, com muita mulher, muita cerveja e muita curtição, já que a universidade para eles pode não ter nenhum futuro. No caminho, parando em um posto de gasolina na Carolina do Norte, os rapazes vêem um outro carro, com duas gatas estonteantes, Kat (Gina Marie Heekin) e Joey (Marla Leigh Malcom), acompanhadas do motorista mal-encarado Ricky (Brian Gross); Lee imediatamente se interessa por Joey, que avisa a ele: se chegar em Daytona Beach (o destino deles), para procurar por ela.
Depois de se perderem, o trio pega um desvio e acaba indo parar na cidadezinha de Pleasant Valley, onde são recepcionados pelos habitantes e o prefeito Buckman (Robert Englund), que os avisa: são os convidados de honra do festival Guts n’ Glory, comemorativo do aniversário da cidade, com temática da Guerra de Secessão. Logo depois, para surpresa de Lee, Joey e seus amigos se aproximam de carro, seguidos ainda do motoqueiro Malcolm (Mushond Lee) e sua namorada Leah (Bianca Smith).
Assim, tudo parece que vai se encaixar bem, pois muitas mulheres lindas moram na cidade, para alegria de Nelson e Cory; Joey está realmente afim de alguma coisa com Lee; Kat se anima com os habitantes da ala masculina, assim como Ricky (sim, ele é gay) e Malcolm e Leah, bem, eles já têm o que fazer.
Só que alguma coisa está errada. Os habitantes são muito hospitaleiros, agradáveis e coisa e tal; mas, um por um, os forasteiros desaparecem. Até que Lee descobre o que realmente está acontecendo e, junto com Joey e seus amigos, terão que rezar para conseguirem sobreviver ao terrível festival, pois Pleasant Valley e todos seus habitantes têm um pequeno segredinho...
Boa diversão sangrenta, uma recriação de um “clássico” do terror de 1964, chamado “2000 Maniacs” que foi dirigido e criado por Herschell Gordon Lewis, o pioneiro dos filmes de terror mais hardcore e que apostam na violência mais gráfica e chocante, inusitada na época e que fez escola, inclusive na Europa. Com o envolvimento de Eli Roth, responsável por “Cabana do Inferno” e “O Albergue” (ambos já comentados aqui no blog, procurem nos arquivos), a quantidade de sangue, tripas e podreiras afins é elevada à máxima potência, com resultados tão exagerados que dão mais motivos para riso do que para medo; e a intenção dos realizadores foi exatamente esta, com uma comédia sangrenta na melhor tradição de “Uma Noite Alucinante” (também já comentado aqui no blog, mais uma vez olhem nos arquivos), por acaso também produzido por Scott Spiegel, que tem muitos bons momentos e outros nem tanto, mas com um resultado geral bem aceitável.
Com um orçamento baixo e enxuto, temos muita coisa legal para nos divertirmos, mas é muito melhor irmos por partes, como diria nosso amigo inglês.
Começando pelo elenco, o destaque total vai para o velho conhecido do fã de terror Robert Englund, intérprete do ícone Freddy Krueger e que está simplesmente se divertindo como nunca no papel do prefeito Buckman, o líder da comunidade; exagerando no sotaque sulista e nas micagens, o veterano dá um show e torna toda a experiência mais bacana. Gostei também de Giuseppe Andrews (que se não se cuidar acaba virando o novo Bruce Campbell do terror. E tomara que não se preocupe com isso mesmo!) e dos dois menestréis da cidade, hilariantes. O restante segue o padrão dos jovens atores, muita aparência e pouco conteúdo.
Falando nisso, os apreciadores de beleza feminina terão um bom deleite para os olhos, pois praticamente todas as atrizes são bonitas e gostosas e o roteiro não tem pudor nenhum em explorar seus belos corpos, com muitos seios de fora e fetiches (roupas de empregada, mulheres juntas se beijando, shortinhos e couro), mostrados com muito bom humor.
Em outro departamento, os assassinatos são bem diferentes e muito bem montados pela equipe de efeitos especiais e de maquiagem, tendo para todos os gostos: desmembramentos, cabeças decepadas, lanças (!), sinos caindo na cabeça (!!) e ácido sulfúrico (!!!); uma festa gore e com sangue falso aos borbotões. O que nos leva ao roteiro, muito sarcástico e sem a menor preocupação em ser politicamente correto, algo que eu, particularmente, aprecio sempre. Tem piadas grosseiras (e outras nem tanto) com caipiras, homossexuais, comida, idosos, minorias étnicas e muito mais. Coisa boa, senhoras e senhores, sobra para todo mundo!
Em resumo, nada para entrar nas listas acadêmicas. Mas é divertido e cumpre sua proposta, que é a de simplesmente fazer passar o tempo.
Como curiosidade, o spring break é uma pausa de duas semanas nas aulas dos EUA (antes de começar o último trimestre e as provas finais), onde tradicionalmente os universitários e colegiais soltam a franga e se acabam na birita e no sexo, que já serviu de mote para muitas produções, de todos os gêneros.

Elenco: Robert Englund (Prefeito Buckman), Lin Shaye (Granny Boone), Giuseppe Andrews (Harper Alexander), Jay Gillespie (Anderson Lee), Marla Leigh Malcom (Joey), Dylan Edrington (Nelson Elliott), Matthew Carey (Cory Jones), Gina Marie Heekin (Kat), Brian Gross (Ricky), Mushond Lee (Malcolm), Bianca Smith (Leah), Peter Stormare (Professor Ackerman), Brendan McCarthy (Rufus Buckman), Adam Robitel (Lester Buckman), Christa Campbell (Donzela do Leite), Wendy Kremer (Peaches), Kodi Kitchen (Hester), Cristin Michele (Glendora), Ryan Fleming (Hucklebilly), Johnny Legend (Menestrel Errante #1), Scott Spiegel (Menestrel Errante #2), Eli Roth (Justin, vulgo Grim), Craig Stark (Xerife Friedman), Travis Tritt (Frentista), William “Billy” Burnside (Banjo Boy), Bill McKinney (O Chef), Isaac C. Singleton Jr. (O Açougueiro), Jezebel, Topper (Dr. Mambo), Kane Hodder (Jason), Tim Sullivan (Harry, Agente Funerário), Hugh Casey (Reverendo Jonas),

Diretor: Tim Sullivan; Roteiro: Tim Sullivan e Chris Kobin; Produção: Brett W. Nemeroff, Eli Roth, Scott Spiegel, Christopher Tuffin e Boaz Yakin; Co-produção: Eric Miller e C. Scott Votaw; Produtores Associados: Lisette Bross e David Fleming; Produção Executiva: Jonathan Bross; Co-produção Executiva: David F. Friedman; Trilha Sonora: Nathan Barr; Direção de Fotografia: Steve Adcock; Montagem: Michael Ross; Seleção de Elenco: Aaron Griffth; Cenografia: Lori Mazuer; Figurinos: Wendy Moynihan; Maquiagem: Wendy Boscon e Heather Mages; Efeitos de Maquiagem: Grady Holder, David A. Brooke e Ron Karkoska; Som: Trevor Jolly, Craig Clark e Craig Schafer; Efeitos Sonoros: Mark Allen e Danny Kim; Efeitos Especiais: Roy Knyrim e Robert Vazquez; Efeitos Visuais: Robert Kurtzman.

Classificação:
!!!

domingo, junho 03, 2007

Amityville - A Casa do Medo

Amityville: A Casa do Medo (Amityville 3-D / Amityville 3 / Amityville 3: The Demon / Amityville: The Demon, EUA, 1983 – 100 min.)

“Adentre os portões do inferno… Por sua conta e risco!”

John Baxter (Tony Roberts) é um repórter abelhudo – e orelhudo – que se especializou em desmascarar falsos eventos e fenômenos ditos “sobrenaturais”, além de videntes e picaretas em geral, junto com a parceira Melanie (Candy Clark). Em sua ultima reportagem, eles puxaram o tapete de um casal que fingia convocar espíritos em uma casa com fama de mal-assombrada em Amityville. Como não acredita em nada dessas bobagens, precisa de um teto para morar depois de se divorciar de Nancy (Tess Harper) e o dono da casa, Sanders (John Harkins) está mais do que ansioso para se livrar do abacaxi, Baxter compra o imóvel e se muda, pretendendo escrever um longamente adiado romance.
Não demora muito para que estranhos eventos comecem a ocorrer, inclusive com pessoas morrendo, na casa ou por influência desta. Quando sua filha, Susan (Lori Loughlin) sofre um acidente no lago em frente da casa e morre, Baxter e a esposa aceitam a proposta de um parapsicólogo, Elliot West (Robert Joy) para uma investigação científica da casa e chegar a uma resposta sobre se o local é assombrado ou não, já que Nancy está perigosamente próxima da insanidade depois da morte da filha e acredita que a moça esteja na casa.
Só que a presença que habita a casa não está nada satisfeita e não vai deixar barato a invasão...
Segunda seqüência do sucesso de 1979, “Terror em Amityville” e que não tem nenhuma relação com os eventos do primeiro ou do segundo filmes, preferindo colocar a casa como protagonista do espetáculo; os assassinatos dos De Feo são mencionados rapidamente e sem citar nomes e a epopéia da família Lutz nem mesmo é considerada, funcionando como uma produção independente.
O que é ótimo, já que os dois primeiros, que são bastante decentes (aguarde comentários aqui no blog) não precisam passar vergonha de serem associados com esta bomba, que não cumpre nada do que promete. Ainda por cima, foi cometida utilizando a técnica de 3-D, que estava sendo meio que ressuscitada na época; até um exemplar da série interminável “Sexta-Feira 13” e outra seqüência de “Tubarão” foram feitas com essa intenção; mas, relaxem, ninguém vai precisar usar aqueles óculos engraçados para ser torturado aqui.
Com um roteiro ridículo e sem rumo, parece que nosso personagem principal fez um baú de cópias de chaves e saiu distribuindo na rua. Todo mundo entra e sai a hora que quer da casa do homem quando ele não está, somente para dar uma desculpa aos realizadores para mostrar cenas quase constrangedoras de manifestações da casa, com efeitos especiais pobres, sem nenhum punch ou suspense que preste. Outro problema grave é o fato de que a personagem de Candy Clark, parceira de Baxter nas reportagens, some depois da metade do filme e nem mesmo é mencionada novamente por ninguém.
O que nos leva ao distanciamento emocional de todo o elenco, frio e desinteressado e que traz zero de identificação. Se ninguém se importa um com o outro, porque eu, espectador, teria que achar ruim o que acontece com eles no filme? Que morram todos, assim acaba rápido! Principalmente o protagonista, que parece ser feito de pedra. Nada abala o cara, ou pelo menos o ator assim o caracteriza; tragédias ocorrem com ele o tempo todo e nada, nem mesmo uma lágrima derramada pela filha ou pelas outras pessoas do seu círculo de amizades que são atingidas pela casa. No lado “jovem”, ainda pior, pois me digam que grupo de “adolescentes” sozinhos em casa (dois homens e duas garotas) e sem perspectiva de serem surpreendidos por ninguém, resolvem fazer o jogo do copo em vez de curtirem todas? Francamente!
Ainda mais inacreditável é a direção da lenda Richard Fleischer, em franca decadência e que enquadrou pessimamente o filme todo, cortando os lados e deixando atores pela metade aparecerem na tela. Além disso, (que, admito, foi corrigido depois de mais ou menos meia hora de projeção, apesar de ainda ter escorregadelas aqui e ali) temos zero suspense e um clima geral de preguiça. Para quem já assinou clássicos da fantasia como “20.000 Léguas Submarinas” e “Viagem Fantástica”, além dos bacaninhas “Conan, o Destruidor” e “Guerreiros de Fogo”, é muito pouco. E decepcionante, também. O que as pessoas não fazem para pagar o aluguel...
Nos aspectos técnicos, efeitos especiais de fundo de quintal (a parede do banheiro é bem exemplificativa da falta de noção, pois se move para perto do ator e... Nada acontece!) e uma fotografia escurecida que só serve para irritar, já que não esconde a falta de vontade do elenco e a preguiçosa composição de quadros e suspense. Pena que a trilha sonora, bem boazinha, vê seus esforços irem por água abaixo (talvez no poço do porão da casa).
Como positivo, apenas a estréia de Meg Ryan, fofíssima e já demonstrando seu carisma como uma amiga de Susan que não está nem aí para fantasmas e coisas que tais. E também some da projeção como se engolida por um buraco para nunca mais ser nem mesmo mencionada. O final, pelo menos, é bem movimentado e destrutivo.
Leitores amigos, se eu não tivesse recebido de graça tinha jogado na privada e dado descarga. Nem percam seu tempo.

Elenco: Tony Roberts (John Baxter), Tess Harper (Nancy Baxter), Robert Joy (Elliot West), Candy Clark (Melanie), John Beal (Harold Caswell), Leora Dana (Emma Casswell), John Harkins (Clifford Sanders), Lori Loughlin (Susan Baxter), Meg Ryan (Lisa), Neill Barry (Jeff), Peter Kowanko (Roger), Carlos Romano (David Cohler), Josefina Echanove (Dolores), Jorge Zepeda (Motorista da van), Raquel Pankowsky (Mulher Sensitiva), Paco Pharrez (Homem da Manutenção).

Direção: Richard Fleischer; Roteiro: William Wales; Produção: Stephen F. Kesten; trilha Sonora: Howard Blake; Direção de Fotografia: Fred Schuler; Montagem: Frank J. Urioste; Seleção de Elenco: Howard Feuer e Jeremy Ritzer; Direção de Arte: Giorgio Postiglione; Cenografia: Justin Scoppa; Figurinos: Clifford Capone; Maquiagem: Anthony Cortino; Efeitos de Maquiagem: Vincent Callaghan e John Caglione Jr.; Som: William L. Stevenson, Rick Kline e Michael Minkler; Efeitos Especiais: Jeff Jarvis e Michael Wood; Efeitos Visuais: Gary Platek.

Classificação: !

domingo, maio 06, 2007

Uma Noite Alucinante

Uma Noite Alucinante (Evil Dead 2: Dead by Dawn / Evil Dead II, The Sequel to the Ultimate Experience in Grueling Terror, EUA, 1987 – 85 min.)

“Terrível demais. Assustador demais. Demais!”

Um jovem casal, Ash (Bruce Campbell) e Linda (Denise Bixler), alugou uma cabana no meio da floresta para passar alguns dias juntos, comemorando o início das férias. À medida que avançam rumo ao chalé, verificam que o caminho não é dos mais fáceis, pois tudo está mal-cuidado e um pouco abandonado. Na cabana, eles encontram um gravador e um estranho livro, com um monstro na capa; tocando a fita, eles descobrem que o livro é um registro sumério de práticas de conjuração de demônios e o professor Knowby (John Peakes) recitando algumas passagens. O que eles não sabem é que as conjurações servem para despertar demônios das trevas, que se utilizam dos vivos para devorar almas; depois de Linda ser possuída, Ash acaba ficando inconsciente depois de uma batalha pela sobrevivência, onde até seu próprio corpo se virou contra ele.
Nesse meio tempo, a filha do professor, Annie (Sarah Knowby), chega do exterior com o restante das páginas do livro, encontradas em uma escavação no castelo de Kandar e vai até a cabana, acompanhada de seu namorado Ed (Richard Domeier), se encontrar com seu pai para terminarem as pesquisas. Finalmente no chalé, com a ajuda de uma dupla de habitantes locais, Jake (Dan Hicks) e Bobbie Joe (Kassie Wesley), pois a ponte que ligava a cabana ao mundo exterior desabou, todos terão que se virar para não serem derrubados um por um, pois os demônios não vão desistir assim tão facilmente.
Cinco anos depois do primeiro “Evil Dead”, o diretor Sam Raimi, agora com mais dinheiro e experiência, resolveu cometer esta seqüência, que não é bem uma continuação; e sim um novo começo, que em alguns aspectos supera o original e, em outros, fica devendo. Os efeitos especiais e de maquiagem estão muito melhores; o ritmo mais acelerado; os movimentos de câmera continuam inspirados e cheios de estilo e, principalmente, a evolução do sensacional canastrão Bruce Campbell, que domina o filme com seu personagem pateta-heróico e virou ícone do gênero com suas frases inspiradas. Groovy!
O diretor, desta vez, mudou alguns aspectos da trama (alguns problemas com os direitos do original o impediram de refilmar algumas cenas) e optou por turbinar as risadas, usando o terror como escada para muitas cenas cômicas, principalmente com Campbell (os demais atores do elenco, todos muito fracos, estão lá como bucha de canhão para os demônios destruírem).
O ator usa todo seu arsenal de comédia pastelão para segurar o interesse e tem uma atuação insana de primeira categoria, com um grande arsenal de gargalhadas histéricas e olhares ensandecidos; nesse tópico, destaque para a luta de Ash com sua mão (!), com direito a socos na cara e pratos quebrados, além de uma perseguição digna de Tom e Jerry e os objetos da casa rachando o bico da cara do protagonista. Claro que o horror gore e sangrento não foi esquecido. Temos muitas decapitações, desmembramentos, sangue verde espirrando aos galões (não puderam usar vermelho para evitar uma censura muito alta), punhaladas e tiros de escopeta para todos os lados, somados a ataques da própria floresta (com muitas árvores de borracha).
Com essas decisões, Raimi levou sua série para uma outra direção, a do cinema fantástico, o que ficou ainda mais evidenciado com o último filme da série, “Army of Darkness”, bem parecido com aquelas produções estrelando Sinbad, dos anos 70 e “Fúria de Titãs”, só que com muito mais sangue e tripas.
Ainda temos lugar, felizmente, para arrepios, como a dança da morta-viva, as cenas no porão (onde Ash tem que lidar com a esposa do professor, que foi enterrada lá) e mais uma corrida alucinante pela floresta, com o uso da steady-cam (ponto de vista de primeira pessoa, ou seja, como se a câmera fosse nossos olhos), que ficou ainda melhor do que no primeiro filme; mas a comédia predomina, sendo algo típico do período.
Com isso, o primeiro fica mais destacado no quesito medo e permanece, para mim, como o melhor da trilogia, ainda que perdendo nos aspectos técnicos, que teve a participação dos futuros reis da maquiagem dos filmes de terror Kurtzman, Berger e Nicotero na equipe de Mark Shostrom. A trilha sonora também é bem legal, dando o tom certo nas mudanças de enfoque de terror para comédia e vice-versa.
Assim, mesmo com todos os defeitos apontados, “Evil Dead 2”, um dos pioneiros na mistura de terror hardcore e comédia, é um dos melhores já feitos e tem seu lugar cativo na minha estante; altamente recomendável!

Elenco: Bruce Campbell (Ashley “Ash” J. Williams), Sarah Berry (Annie Knowby), Dan Hicks (Jake), Kassie Wesley (Bobbie Joe), Ted Raimi (Henrietta – Possuída), Denise Bixler (Linda), Richard Domeier (Ed Getley), John Peakes (Professor Raymond Knowby), Lou Hancock (Henrietta Knowby), Snowy Winters (Dançarina). Criaturas (Fake Shemps): Sid Abrams, Josh Becker, Scott Spiegel, Thomas Kidd, Mitch Cantor, Jenny Griffith e William Preston Robertson (voz da Mão, Espírito das Trevas, Cabeça de Veado, Objetos Encantados)

Diretor: Sam Raimi; Roteiro: Sam Raimi e Scott Spiegel; Produção: Robert G. Tapert; Co-produção: Bruce Campbell; Produção Executiva: Alex de Benedetti e Irvin Shapiro; Trilha Sonora: Joseph LoDuca; Direção de Fotografia: Peter Deming; Montagem: Kaye Davis; Direção de Arte: Randy Bennett e Phillip Duffin; Cenografia: Elizabeth Moore; Maquiagem: Wendy Bell; Efeitos de Maquiagem: Mark Shostrom; Som: David John West e Andrew Schatz; Efeitos Sonoros: John Voss Bond Jr., Kevin Hill, Cindy Rabideau, Drew Newmann, Steve Sheranian, Brian E. Wedewer e David Lewis Yewdall; Efeitos Especiais: Vern Hyde, Dave Thiry, David Moenkhaus e Larry Odien; Efeitos Visuais: Jim Aupperle, James Belohovek e Larry Arpin.

Classificação: !!!!