sexta-feira, maio 23, 2008

Mutilados

Mutilados (Severance / P45, ING/ALE, 96 min.)

Cartaz:
Aqui

Um grupo de funcionários de uma fábrica de armas (sorrisinho irônico) está em um ônibus, se dirigindo para uma cabana de caça no meio da floresta da Europa Oriental, como parte de um exercício de aproximação, dinâmica de grupo. No meio do caminho, o motorista, que não fala uma palavra de inglês, briga com a galera e os larga no meio da estrada.
Sem alternativa, o grupo vai andando e chega em uma cabana no meio do mato, que pode ou não ser o local para onde estavam indo; e, aos poucos, vão sendo atacados por um assassino ou assassinos misteriosos e têm que lutar para sobreviverem.
Uma pequena jóia do cinema de terror e suspense, misturando cenas sangrentas com altas doses de humor – negríssimo, diga-se de passagem – sem perder a mão durante o desenvolvimento da trama. Desde a abertura até o final, o diretor Smith tira tudo do roteiro e brinca de forma consistente com as convenções do gênero e a narrativa. Sem uma linha do tempo definida, praticamente todo o primeiro ato e metade do segundo são utilizados para mostrar cada um dos personagens, que possuem personalidades distintas e interessantes; nós nos importamos com eles quando a carnificina começa e torna tudo o que é mostrado ainda mais impactante, além de uma boa inversão de expectativas; nem tudo é o que parece e o roteiro foge dos lugares comuns em relação ao que está no inconsciente coletivo do apreciador do gênero.
Passado no paraíso do “torture porn” (sem os exageros ridículos da maioria das produções dessa linha, como “O Albergue”), a Europa Oriental, várias histórias de fundo são mostradas para dar alguma explicação para os acontecimentos; deixando para o espectador escolher a que melhor lhe convém, o diretor consegue mais uma surpresa ao deixar claro qual é a verdadeira somente no terceiro ato, que amarra legal a narrativa circular e ainda entrega um final irônico e inteligente. E, ainda, vai dando pequenas dicas para quem assiste sobre o tipo de confusão em que os protagonistas se meterão, com planos-detalhes de armadilhas de urso, partes do corpo mutiladas e outras coisinhas que eu não vou entregar aqui.
É tecnicamente muito bom, com planos bonitos e movimentos elegantes de câmera, diferente do que normalmente se faz, pelo menos em um exemplar tão sangrento, onde a suposta simplicidade de filmagem procura esconder falhas de planejamento de cena ou de orçamento; em mais uma decisão ousada, a maior parte das tomadas foi realizada com um ponto de vista de perseguidor, como se o espectador estivesse caçando os protagonistas. Esse artifício ajuda a criar um clima de suspense e tensão como poucas vezes eu vi recentemente.
Muito desse envolvimento se deve ao elenco escolhido, com alguns rostos conhecidos que incluem Toby Stephens (o vilão de “007 – Um Novo Dia para Morrer”), Laura Harris (da 2ª temporada da série “24 Horas”) e Tim McInnerny (o amigo casado com a deficiente de “Notting Hill”); mas a maioria é de independentes, inclusive um dos “musos”de David Lynch, Danny Dyer, dono do papel mais bacana, o de Steve, o chapadão, dono das melhores tiradas. Destaque ainda para Andy Nyman, como Gordon e sua mochila do Gato Félix; o que sai daquilo é impressionante.
Enfim, um filme inteligente, não é covarde, não enche o saco com ações estúpidas dos personagens, não fica tremendo a câmera o tempo todo, tem orgulho de sua verve canalha (as mocinhas tentando sair da armadilha é de rolar de rir) e ainda se dá ao luxo de tirar um sarro dos gurus de Administração tão em voga atualmente. Façam a garimpagem nas locadoras, cada minuto vale. E pense duas vezes antes de se enfiar em uma viagem de “integração de equipe” que seu chefe empurrar para você.

Elenco: Toby Stephens (Harris), Claudie Blakley (Jill), Andy Nyman (Gordon), Babou Ceesay (Billy), Tim McInnerny (Richard), Laura Harris (Maggie), Danny Dyer (Steve), David Gilliam (George), Juli Drajkó (Olga), Judit Viktor (Nadia), Sándor Boros (Motorista). Assassinos: Levente Törköly (Cabana), János Oláh (Lança-chamas), Attila Ferencz (Esmaga-cabeça), Bela Kasi (Cabeçada), Roland Kollárszky (Faca na Bunda), Péter Katona (Jogador de Pedras), Levente Lezsák (Mina Terrestre), Nick Greenall (Arma Grande).

Direção: Christopher Smith; Roteiro: James Moran (história) e James Moran e Christopher Smith (roteiro); Produção: Finola Dwyer e Jason Newmark; Co-produção: Alexandra Arlango, Andrew Hildebrand, Colleen Woodcock e Mark Wooley; Produção Executiva: Steve Christian, Michael Kuhn e Rosa Romero; Co-produção Executiva: Malcolm Ritchie e Jill Tandy; Trilha Sonora: Christian Henson; Direção de Fotografia: Ed Wild; Montagem: Stuart Gazzard; Seleção de Elenco: Williams Davies e Gail Stevens; Design de Produção: John Frankish; Direção de Arte: Louise Marzaroli e Lucinda Thomson; Cenários: Zsuzsa Mihalek; Figurinos: Stephen Noble; Maquiagem: Jan Sewell; Som: Peter Baldock, Paul Cotterell e Joe Henson; Efeitos Sonoros: Nick Baldock; Efeitos Especiais: Richard Darwin e Attila Torók; Efeitos Visuais: Phil Attfield, Simon Frame e Howard Watkins.

Classificação:
!!!!

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