sexta-feira, maio 23, 2008

1408

1408 (1408, EUA, 104 min.)

Nota: Se você ainda não assistiu o filme, este texto pode conter alguns spoilers (em português claro, “entregar” alguns pontos-chave do filme), leia por sua própria conta e risco, ok?

Cartaz:
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Um escritor famoso por criar livros onde desmistifica fenômenos paranormais, Mike Enslin (John Cusack) descobre um hotel em Nova York, o Dolphin, onde um dos quartos – o 1408 do título – possui um histórico assustador de suicídios, mortes naturais e estranhos acidentes. E o melhor, ninguém consegue durar mais do que uma hora dentro do lugar. Pressentindo que encontrou o capítulo principal de sua última empreitada, “10 Noites em Hotéis Mal-Assombrados”, ele força o gerente, Olin (Samuel L. Jackson) a lhe permitir passar a noite no mal-afamado quarto. E descobre que pode ter abocanhado mais do que seu ceticismo lhe permite agüentar.
Retirado de um conto de Stephen King, o filme não faz feio em recriar o clima de tortura psicológica presente no texto. Houve um bom trabalho de expansão da idéia inicial, que poderia dar quando muito um curta-metragem e foi bem desenvolvido pelos roteiristas (nada menos do que três profissionais), aproveitando cada grama de carisma e talento do seu protagonista, John Cusack. Depois de pelo menos uma década no piloto automático e interpretando a si mesmo, o ator teve uma ótima performance, mantendo o interesse do espectador em alta, mesmo porque ele está praticamente sozinho em cena durante três quartos da produção; e isso, meus amigos, é difícil para caramba de se conseguir. Acho que a última atuação com tanto tempo de tela de um ator sozinho em cena foi em “Náufrago”, com Tom Hanks – e ele ainda teve Wilson (a bola de vôlei, lembram?) para ajudar a segurar a onda.
Segundo filme do diretor sueco Mikael Hafstrom em Hollywood, depois do risível “Fora de Rumo”, uma bobagem de que até mesmo o tosco “A Força em Alerta 2” vence em tensão e suspense, demonstra que o talento demonstrado por ele no filme “Evil” indicado ao Oscar em 2004 – quando perdeu para “As Invasões Bárbaras” de Denys Arcand – não foi diluído ou perdido, como se poderia pensar. Com um ritmo narrativo excelente, planos perturbadores, ângulos de câmera inusitados e uma montagem interessante, o sueco conseguiu imprimir o mesmo senso de descida à insanidade que o conto possuía. Com uma construção lenta e gradual do poder demoníaco do quarto, o espectador, graças também a uma história de fundo plausível para o protagonista, embarca sem muito freio nos delírios do escritor atormentado e aceita sem muitos questionamentos as diversas maneiras com que o 1408 tenta “dobrar” o intruso.
Duas cenas em particular me impressionaram, pelo cuidado dos detalhes e o susto na hora certa: quando Cusack está na janela e pede ajuda ao habitante do prédio em frente e a tentativa do escritor de buscar sair do quarto pelo parapeito. Na primeira, filmada de maneira simples, o personagem chega a uma conclusão desagradável junto com quem assiste, comprovando a ambientação envolvente montada pelo diretor; e, na segunda, o plano aberto depois de alguns passos é arrepiante, bem como o detalhe do mapa do hotel mostrado na porta reforça de modo inteligente e sem enrolação a intenção de demonstrar a irrealidade causada pelo quarto e inteligência demoníaca do 1408.
Depois do próprio cômodo, Samuel L. Jackson em uma, praticamente, participação especial é o personagem mais fascinante do filme e domina com facilidade suas cenas, fazendo com perfeição as poucas falas expositivas presentes no roteiro e situando o espectador para a enormidade da encrenca que Enslin entrou de livre e espontânea vontade; ao mesmo tempo em que não podemos deixar de desejar que o protagonista ignore todos os avisos – senão não tem filme – Olin é crível e não demonstra, em nenhum momento, algum motivo escuso ou debochado para demover aquele “cliente” indesejável que não seja uma genuína preocupação com a segurança do escritor e de não querer provocar o quarto do Capeta. Da próxima, John, se Sam Jackson lhe diz para não fazer alguma coisa, siga a orientação dele, rapaz!
Mesmo com todas as qualidades apontadas acima, o filme não dá o passo necessário para se tornar memorável, justamente pelas limitações paradoxais de se contar com um grande orçamento para fazer um filme de terror. O estúdio e os engravatados se metem mesmo e isso se vê pela desnecessária, no contexto da trama, grandiloqüência da trilha sonora e de alguns efeitos especiais, estes inegavelmente de excelente qualidade. Mas que soam e nos fazem sentir que estão deslocados e fora de lugar. Enquanto o filme se mantém intimista e na seara das tomadas criativas (inclusive algumas bastante interessantes com espelhos, deliciosamente anacrônicas), “1408” sustenta e prende o interesse.
Na média (baixa) do cinema de gênero da atualidade, esta produção se destaca, pelo roteiro de razoável inteligência, uma dupla de atores talentosos e bem dirigidos e um vilão improvável. Em um dos diálogos, reproduzido literalmente do conto original, o escritor afirma que quartos de hotel são sinistros por sua natureza de transitoriedade e impessoalidade; quem viveu ali antes de você, usou o banheiro, dormiu naquela mesma cama, você não conhece nem sabe o estado mental, mas sente. E “1408” extrapola o sentimento normal de que esses aposentos têm uma vida própria.
Uma boa pedida, merece ser conhecido, embora tenha um efeito melhor quando revisitado, provavelmente. Da primeira vez que se assiste, pode-se não conseguir apreciar devidamente os valores do filme; porém, depois, conseguimos passar através do véu de puro entretenimento e vislumbrar questões importantes, como somente um bom filme de terror e horror consegue passar e sem apelar para cenas irritantes de tortura e sanguinolência sem sentido.

Elenco: John Cusack (Mike Enslin), Samuel L. Jackson (Gerald Olin), Tony Shalhoub (Sam Farrell), William Armstrong (Clay, o Advogado), Kim Thomson (Recepcionista), Drew Powell (Gerente Assistente), Noah Lee Margetts (Mensageiro), Isiah Whitlock Jr. (Engenheiro de Manutenção), Mary McCormack (Lily Enslin), Jasmine Jéssica Anthony (Katie Enslin), Lou Cariou (Pai de Mike).

Direção: Mikael Hafstrom; Roteiro: Matt Greenberg, Scott Alexander e Larry Karaszweski, baseados no conto “1408” de Stephen King; Produção: Lorenzo Di Bonaventura; Produtores Associados: Kelly Dennis, Antonia Kamalcoff e Jeremy Speckler; Produção Executiva: Harvey Weinstein, Bob Weinstein, Richard Saperstein e Jake Myers; Trilha Sonora: Gabriel Yared; Direção de Fotografia: Benoit Delhomme; Montagem: Peter Boyle; Seleção de Elenco: Elaine Granger; Design de Produção: Andrew Laws; Direção de Arte: Stuart Kearns, Doug J. Meerdink e Mark Raggett; Cenografia: Daniel B. Clancy e Marina Morris; Figurinos: Natalie Ward; Maquiagem: Luisa Abel, Victor DeNicola, Linda Grimes, Pauline Hayes e Suzanne Stokes-Munton; Efeitos de Maquiagem: Karl Derrick e Deborah Hyde; Som: Nigel Mills, Tim Cavagin, Craig Irving, Kevin McCue e Steve Single; Efeitos Sonoros: Nigel Mills e Steve Mayer; Efeitos Especiais: Paige Chaytor, Ian Corbould e Paul Corbould; Efeitos Visuais: David Dozoretz, Sean Farrow, Adam Gascoyne, Uel Hormann, Simon Leech, Ben Shepherd e Val Wardlaw.

Classificação:
!!!

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