segunda-feira, junho 04, 2007

Prelúdio Para Matar

Prelúdio Para Matar (Profondo Rosso / Deep Red / The Hatchet Murders / Dripping Deep Red, ITA, 1975 – 126 min.)

Em um teatro, a sensitiva Helga (Macha Meril), acompanhada do psicanalista Giordani (Glauco Mauri) e do cientista Bardi (Piero Mazzinghi), faz uma palestra onde demonstra seus poderes de telepatia; de repente, a moça se sente mal e afirma que um assassino está presente na platéia e irá matar de novo. Visivelmente abalada, o show se encerra e Helga volta para sua casa, prometendo escrever quem é o assassino, pois as impressões mentais já se estabilizaram e ela sabe a identidade.
Lá, pressente que não está sozinha e é assassinada brutalmente. Da praça em frente, o pianista Marcus (David Hemmings, de “Blow-Up”), morador do mesmo prédio de apartamentos, testemunha o crime e corre para tentar salvá-la; porém, chega tarde demais para evitar a morte da moça. Com a curiosidade despertada por uma misteriosa figura com capote que viu se afastando do lugar e por um quadro que desapareceu da parede, Marcus, com a ajuda da repórter Gianna (Daria Nicolodi) vai fazer de tudo para chegar ao fundo do mistério, que ainda deixa uma trilha de corpos pelo caminho e carrega uma ameaça nada fútil à sua própria vida.
Grande thriller da década de 70, realizado por um dos diretores / autores mais originais e talentosos do gênero, o italiano Dario Argento. Dono de uma técnica impecável e um grande compositor de imagens, Argento é o fundador de um sub-gênero dentro do horror, o chamado “giallo”. “Giallo”, em italiano, significa “amarelo”, que é a cor utilizada por editores, nos anos 50 e 60, nas capas de publicações baratas com histórias de crimes e terror recheadas de assassinatos e muito sangue; inspiração que o diretor segue à risca e ainda coloca seu toque muito pessoal nos trabalhos que realiza. Com a carreira iniciada em 1969, Argento fez muitos “giallos”, mas somente começou a acrescentar o sobrenatural a partir de seu próximo filme, “Suspiria”, de 1977.
A marca registrada dele é o uso inventivo e delirante da steady cam (câmera de mão) e muitos POVs (tomadas de ponto de vista), com closes de mãos enluvadas, olhos e objetos inanimados; inclusive, em quase todos os filmes quando aparecem as mãos do assassino, ele próprio o interpreta. Além dos aspectos técnicos, outra coisa que chama a atenção é a total falta de pudor em mostrar a violência e usá-la como elemento narrativo. Em “Prelúdio”, por exemplo, temos tiros, punhaladas, cuteladas, água quente (!!!) e decapitações, mostradas em todos os detalhes nos assassinatos cometidos na trama.
Justamente por esse pendão mais gráfico e explícito no uso da violência, seus filmes são impiedosamente picotados por censores e guardiões da moral (e por executivos que querem faturar uns trocados a mais baixando a censura), tornando-os ainda mais fragmentados do que o “normal” e dificultando bastante a compreensão das tramas pelos espectadores. Felizmente, pude assistir a versão integral (com exceção de alguns segundos de uma decapitação, que se perderam para sempre com as tesouras raivosas pelo mundo) e deu para curtir bastante. Claro que temos uma horrorosa dublagem em inglês, sem sincronia nenhuma e com muitas passagens simplesmente ignoradas pelos dubladores, em que temos até cinco minutos seguidos de diálogos em italiano, sem dublagem e sem legendas; e isso acontece em diversos trechos, tirando um pouco do prazer de assistir. Nada que prejudique muito, afinal o que realmente importa, pelo menos ao vermos um legítimo Argento, são as imagens.
Quanto ao filme em si, temos muitas qualidades, como um elenco empenhado e interessante, capitaneado pelo inglês David Hemmings, com sua cara de Paul McCartney e a boa atriz Daria Nicolodi, namorada do diretor na época e muito bem como a repórter pentelha. A investigação do crime transcorre com fluidez (e alguns furinhos no roteiro), num crescendo de elementos e muitas surpresas, onde praticamente todos os personagens, com exceção do pianista, podem ser considerados como suspeitos. Embora a trama possa ser considerada como batida, o diferencial é o toque do diretor. Muitos movimentos de câmera e ângulos inusitados; a fotografia mais etérea, junto com uma cenografia bem diferente, que reforçam a sensação de pesadelo; as marcas registradas estão todas aqui; os efeitos de maquiagem do mestre Carlo Rambaldi; alguns truques com espelhos e bonecos e a crueza da encenação dos ataques do assassino formam um conjunto de dar nos nervos.
Coroando o espetáculo, uma música inquietante e nervosa do grupo Goblin, que se tornaria um parceiro habitual do diretor e pontuando as cenas mais violentas e de perturbação emocional que fazem parte do roteiro com perfeição.
Como nem tudo são flores, o ritmo narrativo é lento demais em algumas passagens e cansa, pois a duração da projeção (mais de duas horas) pedia um pouco mais de gás, além dos exageros tipicamente italianos de uma parte do elenco, principalmente o superintendente e a sensitiva.
Não é um filme digerível com facilidade por qualquer público, mas vale a visita e tem que ser conhecido por qualquer apreciador de cinema, que verá um dos gênios da arte em grande forma. Argento já mencionou em entrevistas e documentários que este é o seu favorito; acho que ele sabe do que está falando, não é mesmo?

Elenco: David Hemmings (Marcus Daly), Daria Nicolodi (Gianna Brezzi), Gabriele Lavia (Carlo), Macha Meril (Helga Ulmann), Eros Pagni (Superintendente Calcabrini), Giuliana Calandra (Amanda Righetti), Piero Mazzinghi (Bardi), Glauco Mauri (Professor Giordani), Clara Calamai (Martha – Mãe de Carlo), Aldo Bonamano (Pai), Liana Del Balzo (Elvira – empregada de Amanda), Geraldine Hooper (Massimo Ricci), Furio Meniconi (Rodi), Fulvio Mingozzi (Agente Mingozzi), Nicoletta Elmi (Olga – filha de Rodi), Jacopo Mariani (Carlo jovem), Vittorio Fanfoni (Policial tomando notas), Dante Fioretti (Fotógrafo da polícia), Lorenzo Piani (Policial das digitais), Salvatore Puntillo (Policial), Piero Vida (Policial gordo), Dario Argento (As Mãos do Assassino).

Direção: Dario Argento; Roteiro: Dario Argento e Bernardino Zapponi; Produção: Salvatore Argento; Produção Executiva: Cláudio Argento; Trilha Sonora: Giorgio Gaslini e o grupo Goblin (Walter Martino, Fabio Pignatelli e Claudio Simonetti); Direção de Fotografia: Luigi Kuveiller; Montagem: Franco Fraticelli; Design de Produção: Giuseppe Bassan; Cenografia: Armando Mannini; Figurinos: Elena Mannini; Maquiagem: Giuliano Laurenti, Giovanni Morosi e Nicla Palombi; Som: Nick Alexander, Mario Faraoni e Eugenio Fiori; Efeitos Especiais: Germano Natali e Carlo Rambaldi.

Classificação:
!!!!

Um comentário:

Anônimo disse...

Prelúdio para Matar


Os que dizem ter adorado esse filme ou estão sendo pagos, tem um péssimo gosto ou são maria-vai-com-as-outras.
É inacreditável que um filme tão morno consiga tantas críticas.

O roteiro não envolve o espectador. Por exemplo, até os 60min. iniciais do filme, acontece uma mísera morte de poucos segundos. Enquanto o pianista corre para ver a mulher assassinada, a trilha sonora não condiz em nada com a morte.

No resto do longa, o tal pianista conversa bobagens com a jornalista; até é desafiado para uma quebra de braço.

E a mãe do tal Carlo? No momento que o cordão a enforca, sai um creme quase cor de rosa. Aquilo pode ser tudo, menos sangue.

Absurdo.