terça-feira, abril 17, 2007

O Exorcista

O Exorcista (The Exorcist / William Peter Blatty’s The Exorcist, EUA, 1973 – 132 min.)

“Entre a Ciência e a Superstição, existe um outro mundo. O mundo das Trevas. Algo além da compreensão está acontecendo com uma garotinha, nesta rua, nesta casa. Um homem foi convocado como último recurso para ajudá-la, para salvá-la. Esse homem... É O Exorcista.”

Uma atriz famosa, Chris (Ellen Burstyn), está em Washington filmando sua mais nova produção. Para manter o calendário de filmagens em dia, ela se mudou para a cidade com sua filha Regan (Linda Blair). Enquanto isso, do outro lado do mundo, no Iraque, o padre arqueólogo Merrin (Max Von Sydow) começa a sentir presságios de que algo de muito errado está acontecendo, depois da descoberta de uma estátua representando o Mal, conhecido como Pazuzu.
Após a estátua ser desenterrada, Regan começa a sofrer com uma misteriosa doença. Sua mãe a leva a vários médicos, que nada conseguem descobrir sobre o que aflige a garota, que passa por muitos e dolorosos exames inúteis. Um dia, Regan desce as escadas de uma forma inusitada (a famosa cena da “spider walk”, pela semelhança entre o modo imaginado pelo roteirista e uma aranha andando) e urina no chão, na frente de convidados de sua mãe para uma festa.
Com a filha cada vez pior, Chris se desespera e procura pelo atormentado Padre Karras (Jason Miller, em sua estréia no cinema), um psiquiatra eclesiástico que está questionando sua fé diante do que ocorre no mundo, com seus colegas religiosos e sua impotência diante dos problemas de sua mãe idosa (Vasiliki Maliaros). Ainda que muito relutante, Karras visita a pobre Regan e, impressionado com o que vê, concorda em realizar um exorcismo, com a ajuda de Merrin, recém-chegado aos EUA e um dos únicos do mundo que já fez o antigo ritual com sucesso. Então, começa uma luta de vida ou morte contra o maior de todos os inimigos...
Excelente e assustador filme de Friedkin, baseado no best seller do também roteirista Blatty e que arrebatou as platéias no inicio da década de 70, sendo, até hoje, em valores atualizados, o filme com censura acima de 18 anos de maior bilheteria da história do cinema. Com níveis de violência e terror até então nunca vistos, ficou famoso por espantar as pessoas das salas de cinema, fazê-las passar mal, desmaiar... Enfim, um clássico moderno que merece ser conhecido, ficou banido da Inglaterra por mais de 14 anos e rendeu ainda ameaças de morte a Linda Blair, por parte de fundamentalistas cristãos.
O diretor acabara de receber um Oscar por seu trabalho no filme “Conexão França” e não poupou esforços para judiar de seu elenco durante as longas filmagens (quase um ano): ele disparava armas por trás deles para assustá-los; refrigerou o quarto onde foi filmado o exorcismo a espantosos 30 graus abaixo de zero – para conseguir filmar respiração dos personagens de forma mais autêntica; jogou a dupla feminina principal para todos os lados, chegando a machucar Burstyn depois de filmar a cena onde a mãe é esbofeteada e voa pelo quarto. Além disso, é um primor de técnica. Montagem inventiva, fotografia escurecida e envelhecida, composições de quadro interessantes (uma da imagens mais emblemáticas de todos os tempos, a cena onde Merrin desce do táxi e fica em frente à casa dos MacNeils; simplesmente fantástica) e ângulos de câmera perturbadores. Inclusive, um truquezinho simples, de que falarei mais tarde, reforça a experiência com muita eficácia.
O resultado de tanto esforço é um realismo extremamente incômodo e aterrorizante, uma vez que muitos dos gritos e rostos contorcidos de dor são reais, além de utilizar efeitos de maquiagem impressionantes e muita sopa grossa de ervilha para retratar a degradação da menina. A atuação de Linda Blair rendeu elogios, mesmo com praticamente todas as cenas onde ela fala possuída terem sido dubladas pela atriz Mercedes McCambridge; Regan cospe, baba, conversa em latim e línguas mortas, vira a cabeça 360 graus, desce escadas como uma aranha, levita, se masturba com um crucifixo, agride as pessoas em volta, xinga como uma puta veterana, tudo que você possa imaginar de grotesco.
Como extra, o diretor espalhou durante a projeção montes de imagens subliminares do demônio por todos os cômodos da casa e diversos locais mostrados durante o desenrolar da trama; os fotogramas não duram mais do que cinco segundos, mas funcionam maravilhosamente bem para estabelecer um clima macabro e tétrico como poucas vezes foi visto no gênero.
Mas, nada disso funcionaria tão bem sem as ótimas atuações: de Burstyn como Chris, em uma performance carismática e angustiante como a mãe impotente para ajudar sua própria prole; do aristocrático Von Sydow (ator favorito do sueco Ingmar Bergman) que dá um enorme peso dramático ao frágil e determinado Merrin, disposto a tudo para espantar seu mais temível adversário; a arrasadora estréia de Jason Miller como o padre Karras, um homem acima de tudo, que mesmo tendo o poder de Deus por trás não se furta a compor um anti-herói profundo e incansável, dilacerado por dúvidas e culpa.
Em uma pequena nota pessoal, este filme é um dos poucos onde realmente tive medo ao assistir; a ambientação e os acontecimentos macabros que permeiam a projeção tiveram um grande impacto em mim e despertaram meu interesse pelo gênero como um todo, no qual persegui através dos anos o mesmo sentimento de desconforto e urgência que passei ao vê-lo pela primeira vez; claro que tive muito mais frustrações do que alegrias nessa viagem atrás do medo, mas nada teria acontecido sem que “O Exorcista” tivesse entrado na minha vida. E o livro é ainda mais assustador, por incrível que pareça; você fica olhando por trás do ombro para cada sombra, cada som estranho que sua imaginação ouça. Essas sensações são impagáveis. Mal comparando, é mais ou menos o que se sente ao encontrar a pessoa que vai ficar ao seu lado o resto da vida. E tenho a sorte de ter os dois.
Saindo da digressão, o filme teve 10 indicações ao Oscar em 1974, um dos poucos do gênero a aparecerem com tanta força na premiação mais careta do cinema (Melhor Som – ganhou, Melhor Roteiro Adaptado – ganhou, Melhor Ator Coadjuvante para Jason Miller, Melhor Atriz para Ellen Burstyn, Melhor Atriz Coadjuvante para Linda Blair, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Diretor para William Friedkin, Melhor Montagem, Melhor Filme) e 7 para o Globo de Ouro (Melhor Diretor para William Friedkin – ganhou, Melhor Filme/Drama – ganhou, Melhor Roteiro – ganhou, Melhor Atriz Coadjuvante para Linda Blair – ganhou, Melhor Atriz para Ellen Burstyn, Melhor Ator Coadjuvante para Max Von Sydow, Revelação Feminina para Linda Blair), um sucesso incomparável.
Depois daqui, a infalível maldição sobre os realizadores de filmes de terror que estouram a boca do balão caiu sobre os envolvidos: Friedkin nunca mais atingiu o mesmo nível de excelência; Jason Miller voltou ao ostracismo do teatro independente; Linda Blair jamais se firmou como atriz; os atores Jack McGowan e Vasiliki Maliaros faleceram antes do lançamento. Brrrr!!!!
Eleito pela revista Variety como o “Filme Mais Assustador de Todos os Tempos”, com certeza está no meu top 5 dos melhores filmes de terror. Não deixem de ver, leitores constantes e fiquem grudados na cadeira até o final falsamente confortante.

Elenco: Ellen Burstyn (Chris MacNeil), Jason Miller (Padre Damien Karras), Max Von Sydow (Padre Lankester Merrin), Lee J. Cobb (Tenente-Detetive William F. Kinderman), Kitty Winn (Sharon Spencer), Jack McGowan (Burke Dennings), Linda Blair (Regan Teresa MacNeil), Reverendo William O’Malley (Padre Dyer), Barton Heyman (Dr. Klein), Peter Masterson (Dr. Barringer), Rudolf Schundler (Karl), Gina Petrushka (Willi), Robert Symonds (Dr. Taney), Arthur Storch (Psiquiatra), Reverendo Thomas Bermingham (Tom, Reitor da Universidade), Vasiliki Maliaros (Mãe de Karras), Titos Vandis (Tio de Karras), Wallace Rooney (Bispo Michael), Ron Faber (Chuck / Voz Demoníaca), Donna Mitchell (Mary Jo Perrin), Roy Cooper (Reitor Jesuíta), Mercedes McCambridge (Pazuzu – Voz).

Diretor: William Friedkin; Roteiro; William Peter Blatty, baseado em seu livro “O Exorcista”; Produção: William Peter Blatty; Produtor Associado: David Salven; Produção Executiva: Noel Marshall; Trilha Sonora: Steve Boeddeker e peças de Mike Oldfield e Penderecki; Direção de Fotografia: Owen Roizman; Montagem: Norman Gay, Evan Lottman e Bud S. Smith; Seleção de Elenco: Louis Di Giaimo, Nessa Hyams e Juliet Taylor; Design de Produção: Bill Malley; Cenografia: Jerry Wunderlich; Figurinos: Joseph Fretwell; Maquiagem: William A. Farley; Efeitos de Maquiagem: Dick Smith; Som: Jean-Louis Ducarme, Richard King, Gary Rizzo, Christopher Newman e Robert Knudson; Efeitos Sonoros: Fred Brown, Bob Fine, Gonzalo Gavira, Ron Nagel, Doc Siegel e Ross Taylor; Efeitos Especiais: Marcel Vercoutere; Efeitos Visuais: Marv Ystrom.

Classificação: !!!!!

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