quinta-feira, março 08, 2007

Série Stephen King 18 / O Sobrevivente

O Sobrevivente (The Running Man, EUA, 1987 – 101 min.)

“2019. Um jogo onde ninguém sobrevive. Este pode ser a exceção...”

Em 2019, os EUA são um Estado policial e totalitário, onde todas as informações são passadas através da TV e cuidadosamente controladas pelos governantes, que não querem ninguém levantando a cabeça. Nesse ambiente opressivo, o maior sucesso de audiência é o game show “O Sobrevivente”, estrelado por condenados e fugitivos da Justiça que são perseguidos e caçados impiedosamente por brucutus assassinos chamados “Sorrateiros”. E o povão delira.
Ben Richards (Arnoldão no auge da forma) é um policial piloto de helicóptero que cai em desgraça depois de se recusar a abrir fogo contra uma multidão desarmada, que fazia tumulto por causa de comida. Nocauteado, processado e condenado, ele mofa em uma prisão. Na cadeia, conhece Laughlin (Yaphett Kotto) e Weiss (Marvin McIntyre), participantes de um pequeno grupo de rebeldes, que quer mudar o atual estado de coisas usando a própria arma dos ditadores, a TV. Depois de uma ousada fuga, Richards acaba sendo dedurado por Amber (Maria Conchita Alonso) e é capturado no aeroporto, quando tentava fugir do país.
Sua fuga e histórico chamaram a atenção do apresentador do “O Sobrevivente”, Damon Killian (Richard Dawson, apresentador por mais de 20 anos do programa “Family Feud”) que propõe a participação de Ben no programa, em troca de poupar Weiss e Laughlin, também recapturados. Lógico que, mesmo tendo a concordância de Richards para a participação, o seboso manda os dois para a porrada também. Os três, ainda por cima acompanhados de Amber (em um toque que não vou estragar, pois o motivo da moçoila se ferrar também é importante para o final da trama), têm que sobreviver, encontrar os rebeldes e revidar.
Beleza de filme de ação, na melhor tradição das produções estreladas pelo astro austríaco no início da carreira. Muitas cenas de perseguição, brigas homéricas, frases feitas afiadas e humor na dose certa, tornando “O Sobrevivente” algo agradável de assistir e relaxar. Escrito pelo especialista De Souza (de “Comando para Matar” e outras pérolas da ação descerebrada nos anos 80 e 90, incluindo o pequeno clássico “Duro de Matar”), o roteiro é levemente baseado no livro de sucesso de King, sob pseudônimo, de onde tirou, basicamente, alguns nomes de personagens e a interessante premissa.
No mais, segue uma estrutura simples – Schwarza enfrenta um vilão, mata (sempre virando a arma do bandido contra ele mesmo) e parte para o próximo – salvo da mediocridade pelas atuações caricaturais e diálogos toscos, eficientes para o clima pretendido de diversão escapista e sem fazer muito sentido. O pano de fundo mais politizado encaixa bem e traz um bom desenvolvimento, em constante ida à frente até a luta final, quando o personagem Ben Richards vai virando o gosto do povão para ele. Nos aspectos técnicos, um tema musical grudento, bons efeitos especiais e de maquiagem colocam a cereja no bolo.
Outra coisa que valoriza o filme é a ótima atuação de Richard Dawson como o apresentador Killian. Inescrupuloso e obcecado por mais audiência, o vilão-mor é interessante, pois vemos a imediata transformação de seu humor ao sair dos bastidores para as câmeras no palco; o ator (um experiente apresentador de game shows na TV americana, usando toda essa bagagem com bons resultados) vai da arrogância e sarcasmo para calor humano e simpatia em questão de segundos, dando mais raiva ainda e fazendo a gente torcer como nunca pelo Arnoldão. Chamo a atenção dos leitores para a cena onde Killian faz uma proposta para Richards, com um ar de olha-só-como-eu-sou-legal-e-você-não-valoriza-seu-trouxa que é impagável.
Destaque ainda para o ator Jesse Ventura como Capitão Liberdade, um veterano do jogo que mantém aquela chama de covardia acesa – ele, do mesmo modo que o astro principal (hoje governador da Califórnia) deixou o cinema para ser governador do estado de Minnesota; Jim Brown, ex-astro do futebol americano, se divertindo para caramba como o impiedoso Fireball e a participação de Mike Fleetwood (da banda de rock Fleetwood & Mac) e Dweezil Zappa (filho do grande Frank Zappa) como líderes da rebelião.
No lado negativo, Maria Conchita Alonso é ruim de mais, estando no filme somente porque fica bem de macacão de lycra e a breguice generalizada dos cenários e figurinos, demais até mesmo para a excessiva década de 80 – o néon e os brilhos, além das danças ridículas das ajudantes de palco e os motoqueiros de butique são de doer os olhos. Por outro lado, as colegas de trabalho rendem bons momentos, como a velhinha que acha Richards um “mean motherfucker – um maldito dum filho da puta”; ver aquela doce senhora soltar um palavrão desses com a vozinha mais fofa do mundo não tem preço, bem como a cara de espanto de Killian.
Vai com fé que vale o aluguel, principalmente se vocês forem fãs do brucutu.

Elenco: Arnold Schwarzenegger (Ben Richards), Richard Dawson (Damon Killian), Yaphet Kotto (Laughlin), Marvin J. McIntyre (Harold Weiss), Maria Conchita Alonso (Amber Mendez), Jesse Ventura (Capitão Liberdade), Jim Brown (Fireball), Gus Rethwisch (Buzzsaw), Professor Toru Tanaka (Sub Zero), Erland Van Lidth (Dynamo), Mick Fleetwood (Mick), Dweezil Zappa (Stevie), Sven Ole-Thorsen (Sven), Karen Leigh Hopkins (Brenda), Edward Bunker (Lenny), Bryan Kestner (Médico), Kurt Fuller (Tony), Donna Hardy (Sra. McArdle), Lynne Marie Stewart (Edith Wiggins), Bill Margolin (Leon).

Diretor: Paul Michael Glaser; Roteiro: Steven E. de Souza, baseado no livro “The Running Man”, de Richard Bachman (pseudônimo de Stephen King); Produção: George Linder e Tim Zinnemann; Produção Executiva: Keith Barish e Rob Cohen; Trilha Sonora: Harold Faltermeyer; Direção de Fotografia: Thomas Del Ruth; Montagem: Mark Warner, Edward Warschilka e John Wright; Seleção de Elenco: Jackie Burch; Design de Produção: Jack T. Collis; Cenografia: Jim Duffy; Figurinos: Robert Blackman; Maquiagem: Jeff Dawn e Peter Tothpal; Efeitos de Maquiagem: Richard Miranda; Som: Richard C. Franklin, Paul Timothy Carden, Rick Kline, Donald O. Mitchell e Kevin O’Connell; Efeitos Especiais: Lawrence J. Cavanaugh e R. Bruce Steinheimer; Efeitos Visuais: Robert Grasmere e Gary Gutierrez.

Classificação: !!!


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