quarta-feira, março 14, 2007

Os Pássaros

Os Pássaros (The Birds; Alfred Hitchcock's The Birds, EUA, 1963 – 119 min.)

“Nada do que você já viu antes poderia tê-lo preparado para estes terríveis e chocantes acontecimentos!”

Melanie (Tippi Hedren) e Mitch (Rod Taylor) se conheceram em uma loja de animais e imediatamente começaram a esgrimir, com tiradas ferinas de parte a parte. Melanie é uma socialite, filha de um magnata da imprensa e Mitch é um famoso advogado de defesa; obviamente que a atração é mútua e Melanie decide levar um presente para a irmã do rapaz, com uma pitada de cinismo (um casal de periquitos, “lovebirds” em ingles) na casa da mãe de Mitch, Lydia (Jessica Tandy) localizada em Bodega Bay, cidadezinha litorânea perto de San Francisco.
Chegando lá, as gaivotas da area atacam Melanie. Aos poucos, as aves vão se juntando e crescendo em número, realizando ataques cada vez mais furiosos e inexplicáveis, causando muita destruição e medo entre os habitantes. Durante a noite, a intensidade dos ataques aumenta e deixa Mitch, Melanie e a família dele isolados dentro de casa. Em uma das estiadas, todos tentam escapar, mas...
Super-clássico do mestre ingles do suspense, em um dos que formam, para mim, o triunvirato insuperável de Hitchcock, junto com “Psicose” e “Um Corpo Que Cai”. Inovador e assustador, “Os Pássaros” é obrigatório para quem aprecia o suspense e por que não dizer, o cinema em geral.
Uma aula de construção de climax, os acontecimentos vão num crescendo de intensidade e medo até um final apocalíptico e atemporal, que mantém sua força até hoje, mesmo tendo mais de quarenta anos de sua realização. Um dos primeiros que utilizou “monstros” da natureza de uma maneira mais séria e sem intenções cômicas, antecipando tendências e utilizando de maneira muito competente efeitos de animação, composição de efeitos fotográficos, mecânicos e de maquiagem; teve muita influência nas produções posteriores, principalmente pela opção do diretor de não utilizar trilha sonora convencional, preferindo apostar na tecnologia (nova na época) dos sintetizadores eletrônicos e sons produzidos pelos proprios animais; em resumo, um primor de qualidade técnica tanto em som quanto nos “vilões”.
A montagem inteligente e fluida ajuda a manter a narrativa ágil, aproveitando os planos mais abertos para mudar de ambiente e o diretor não se furtou de mostrar o resultado dos ataques dos pássaros com detalhes e em closes. Brrrr!!!! Os figurinos de Edith Head também são de primeira linha.
O roteiro de Evan Hunter (nome verdadeiro do escritor de romances policiais e de suspense Ed McBain) sugere, de forma brilhante, que a causa dos ataques é perturbação emocional e sentimentos da heroína Melanie, que obviamente possui uma carga muito grande de negatividade e influencia a todos em volta, além das frustrações de Lydia e de Annie (Suzanne Pleshette), a professora local e antiga namorada de Mitch. Essa correlação de forças entre os estados emocionais dos seres humanos e a agressividade dos animais é comprovada hoje cientificamente e dá um receio danado de irritar demais algum pombinho ou talvez um ursinho fofo por aí...
O elenco demonstra toda genialidade do diretor, com boas atuações de todos, principalmente do par central. Rod Taylor, galã da década de 60 (participou de “A Máquina do Tempo”, entre outros), segura bem o papel de Mitch, dando a dose certa de cinismo, proteção e masculinidade típicas da época. E Tippi Hedren, ex-modelo sueca e estreando no cinema, domina o filme com sua beleza estonteante, voz rouquinha (bem mais sexy do que a das Cicarellis da vida) e boa composição da sua personagem, uma pobre menina rica que paga o preço por suas escolhas de forma trágica. Destaco ainda a estréia de Veronica Cartwright como Cathy.
Cenas memoráveis pululam pela tela, com mais preponderância de: o primeiro ataque à escola, o cerco na casa dos Brenner e, claro, o final deliciosamente aberto e sugerindo um beco sem saída para os humanos, em mais uma demonstração do senso de humor atípico de Hitch, que faz sua tradicional ponta como um homem que está passeando seus cachorros; só como curiosidade, o diretor, na estréia londrina, instalou alto-falantes nas árvores ao redor da rua e tocou, em altos brados, os ruídos e guinchos dos pássaros, usados no filme.
Indicado ao Oscar em 1964 de Melhores Efeitos Visuais, vale a visita.

Elenco: Tippi Hedren (Melanie Daniels), Rod Taylor (Mitch Brenner), Jessica Tandy (Lydia Brenner), Suzanne Pleshette (Annie Hayworth), Veronica Cartwright (Cathy Brenner), Ethel Griffies (Sra. Bundy – ornitóloga), Charles McGraw (Sebastian Scholes – pescador no restaurante), Ruth DeVitt (Sra. MacGruder – dona da pet shop), Lonny Chapman (Deke Carter – cozinheiro do restaurante), Joe Mantell (vendedor no restaurante), Doodles Weaver (Pescador dos barcos de aluguel), Malcolm Atterbury (Delegado Al Malone), John McGovern (Carteiro), Karl Swenson (Bêbado no restaurante), Richard Deacon (Vizinho de Mitch – cidade), Elizabeth Wilson (Ruth Carter), Bill Quinn (Homem no restaurante) e Doreen Lang (Mãe no restaurante ).

Diretor: Alfred Hitchcock; Roteiro: Evan Hunter, baseado no conto de Daphne Du Maurier; Produção: Alfred Hitchcock; Trilha Sonora: Bernard Herrmann; Direção de Fotografia: Robert Burks; Montagem: George Tomasini; Design de Produção: Robert Boyle; Cenografia: George Milo; Figurinos: Edith Head; Maquiagem: Virginia Darcy e Howard Smit; Som: William Russell e Waldon O. Watson; Efeitos Sonoros: Remi Gassmann e Oskar Sala; Efeitos Especiais: Larry Hampton, Dave Fleischer e Chuck Gaspar, Efeitos Visuais: Ub Iwerks.

Classificação:
!!!!

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