sábado, fevereiro 24, 2007

Terror em Silent Hill

Terror em Silent Hill (Silent Hill, CAN/EUA/FRA/JAP, 2006 – 127 min.)

“Aproveite sua estadia.”

Rose (Radha Mitchell, de “Melinda e Melinda” e “Eclipse Mortal”) está correndo por todo o país até a cidade fantasma de Silent Hill, onde há mais de trinta anos um incêndio devastador ocorreu e chamas ainda ardem no subsolo da cidade, um antigo pólo minerador de carvão. A razão para essa corrida desabalada é que sua filha adotada, Sharon (Jodelle Ferland) sofre de ataques de sonambulismo e, nos últimos tempos, tem feito estranhos e assustadores desenhos envolvendo a cidade; sendo sua única pista para entender o que acomete sua amada filha, Rose decide levá-la até lá, mesmo contra a vontade do marido, Chris (Sean Bean).
No caminho para a cidade (que não está no mapa), Rose e Sharon cruzam o caminho da policial Cybill (Laurie Holden); sabendo que Chris deve ter alertado as autoridades, Rose foge até a entrada de Silent Hill, com uma chuva constante de cinzas que escondem o céu. Ao voltar para o carro, Rose verifica que Sharon sumiu. Desesperada, ela vê um vulto se aproximando. É Cybill, fula da vida, que coloca algemas na moça; depois do ataque de um ser sem braços, Rose foge até a rua central e descobre pistas do paradeiro de sua filha. À medida que avança em sua jornada, a mãe fica cada vez mais próxima de um terrível segredo, envolvendo uma seita liderada por Christabella (Alice Krige) e um alarme que toca sempre antes de trevas misteriosas caírem sobre a cidade, quando estranhas criaturas são soltas. Conseguirá Rose sobreviver a esse pesadelo e recuperar sua filha?
Uma das únicas adaptações de jogos de vídeo-game que funcionaram na tela grande, baseada na série “Silent Hill”, da empresa Konami (que atualmente encontra-se na quarta seqüência), de grande sucesso por causa de sua ambientação tétrica e criaturas horripilantes.
No comando da empreitada, temos o diretor Christophe Gans, comprovando mais uma vez sua capacidade impressionante de engendrar espetáculos visuais de grande beleza plástica e climas angustiantes e perturbadores. Contando com a valiosa ajuda do mestre do design Patrick Tatopoulos (de “Godzilla” e “Underworld – Anjos da Noite”, entre muitos outros), Gans dá vida a todas as principais criaturas do game, como o Homem-Pirâmide e sua espada, as Enfermeiras-Negras e outros.
Preferindo utilizar mais efeitos físicos ao uso constante de computação gráfica, o diretor recrutou dançarinos, naturalmente mais flexíveis, para representarem os monstros, deixando ainda mais repelentes as cenas quando as trevas caem sobre a cidade; os movimentos, coreografados por Roberto Campanella, são todos “errados” e causam ótima impressão para o fã de terror, pois deixam ainda mais assustadoras as criaturas do game, re-imaginadas por Tatopoulos. A cenografia, fotografia e montagem estão corretas e reforçam a intenção de respeitar a fonte, com muitas salas abandonadas, bom jogo de luz e sombras, narrativa acelerada na medida certa e alguns cenários muitos interessantes.
No elenco, destaco a boa atuação de Mitchell como Rose, onde ela aproveita muito bem sua mistura de fragilidade e força; Alice Krige, fantástica como a líder da seita e a pequena, mas marcante, participação da bela Deborah Kara Unger como Dahlia, num papel onde mal se reconhece a atriz, de tão diferente do habitual.
Porém, existem falhas. E a maior parte delas encontra-se no roteiro do craque Roger Avary (“As Leis da Atração” e “Pulp Fiction”), que errou a dose de respeito ao game e deixou uma estrutura episódica demais, piorada pelo fato de que a trilha sonora foi tirada inteira da série de jogos e muitos diálogos são risíveis de tão toscos. Ainda como exemplo, toda hora a personagem principal pega um item, usa e descarta, exatamente como em um vídeo-game e cada pista leva para um local novo, parecendo que Rose passou de fase e tem que enfrentar o próximo chefe. Pelamordedeus, né...
Mais um ponto negativo é a sub-trama totalmente desnecessária com Chris, personagem de Sean Bean. O ator, como sempre, tem ótima presença de cena e não tem culpa de os engravatados terem reclamado de que o roteiro só tinha personagens femininas e que somente aprovariam o filme se tivesse algum homem; se não fosse essa exigência ridícula, daria para ter cortado uma boa meia hora de projeção e “Silent Hill” ficaria melhor.
Somando tudo, um filme bem decente de terror, com boas cenas sangrentas (e um final enigmático de dar arrepios) que entra para a lista crescente dos poderia-ter-sido-clássico, se sustentando acima da média com seu visual apurado e trama interessante.

Como curiosidade: na cena final, podemos visualizar uma inscrição na igreja que diz: “Domine Deus Omnipotens in Cuius Manu Omnis Victoria Consistit..”. Ela é parte de uma oração inglesa pré-medieval que era assim: “Ó Deus Todo-Poderoso, em Cuja Mão toda Vitória reside e toda Guerra é destruída; garanta que Tua Mão fortaleça meu coração, fazendo com que eu lute e aja com coragem, para que meus inimigos caiam diante de minha vista.”. Legal, né?

Elenco: Radha Mitchell (Rose Da Silva), Sean Bean (Christopher Da Silva), Laurie Holden (Cybill Bennett), Deborah Kara Unger (Dahlia Gillespie), Alice Krige (Christabella), Jodelle Ferland (Sharon Da Silva / Alessa Gillespie), Kim Coates (Inspetor Thomas Gucci), Tanya Allen (Anna), Colleen Williams (Arquivista), Ron Gabriel (Mecânico), Eve Crawford (Irmã Margaret), Nicky Guadagni (Elinor), Roberto Campanella (Homem-Pirâmide / Zelador / Colin), Michael Cota (Homem-sem-braços), Yvonne Ng (Criança Cinzenta), Lorry Ayers (Alessa), Emily Lineham (Enfermeira Rubra).

Diretor: Christophe Gans; Roteiro: Roger Avary; Produção: Samuel Hadida e Don Carmody; Produção Executiva: Victor Hadida, Andrew Mason e Deb LeFaive; Trilha Sonora: Jeff Danna e Akira Yamaoka; Direção de Fotografia: Dan Laustsen; Montagem: Sebastien Prangere; Seleção de Elenco: Deirdre Bowen; Design de Produção: Carol Spier; Direção de Arte: Ellinor Rose Galbraith e James McAteer; Cenografia: Peter P. Nicolakakos; Figurinos: Wendy Partridge; Coreógrafo: Robert Campanella; Maquiagem: Karola Dirnberger, Rose-Mary Gubala e Paul Pattinson; Efeitos de Maquiagem: Patrick Tatopoulos e Paul Jones; Som: David McCallum, Jane Tattersall, Todd Beckett, Lou Solakofski e Mark Zsifkovits; Efeitos Sonoros: Jane Tattersall, Roderick Deogrades e Paul Germann; Efeitos Especiais: Patrick Tatopoulos, David Gauthier, Dave Grasso, Russell Lukich, Brian Rae e Mark Viniello; Efeitos Visuais: Lisa Carr-Harris, Jessé Bradstreet, Bret Culp, Kyle Menzies, Stephane Ceretti, Evan Jacobs e Lon Molnar.

Classificação: !!!

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