quarta-feira, fevereiro 14, 2007

O Homem de Palha

O Homem de Palha (The Wicker Man / The Wickerman (grafia alternativa) / Anthony Schaffer’s The Wicker Man, ING, 1973 – 88 min.)

“Os residentes de Summerisle convidaram o Sargento Howie para seu tradicional festival de Maio. Só que ele não esperava conhecer... O Homem de Palha!”

O Sargento Howie (Edward Woodward) é um policial zeloso, competente e temente a Deus. Um dia, seus superiores o enviam para a ilha de Summerisle, na costa da Cornualha, de onde receberam uma carta. Nessa carta, era comunicado o desaparecimento da garota Rowan Morrison (Geraldine Cooper) e pedia providências das autoridades para que ela fosse encontrada.
Chegando ao local, Howie começa o trabalho de investigação com os habitantes da ilha, que não sabem, ou fingem não saber, quem é Rowan; observando tudo, o policial nota comportamentos estranhos de praticamente todos os moradores, que incluem canções com letras bizarras, efervescência sexual e desprezo pelos costumes do continente e regras morais em geral.
Cada vez mais determinado, o sargento se encontra com o governante da ilha, o par do reino Lord Summerisle (Christopher Lee), um homem diferente que desdenha do conhecimento comum e é entusiasta das antigas religiões pagãs, que se esmeravam em rituais de fertilidade e sacrifícios aos deuses; a rígida criação católica do homem da lei (noivo, ele ainda não conheceu o amor de uma mulher pois não acredita em sexo antes do casamento) é cada vez mais aviltada e ele sofre cada vez mais com as constantes tentações, principalmente da filha do estalajadeiro, a linda Willow (Britt Ekland, famosa Bond-girl) e dos padrões aberrantes dos habitantes da ilha.
Esses padrões estão chegando ao clímax com a proximidade do Festival de Maio, comemoração do solstício de verão e festa mais importante da localidade, essencialmente agrícola; como a colheita passada foi muito ruim, um sacrifício mais forte deve ser feito para aplacar a fúria dos deuses. E o Homem de Palha aguarda...
Grande filme inglês, que foge dos padrões das famosas produtoras dos anos 60 e 70 Hammer e Amicus, mais focadas no horror gótico-medieval e em personagens clássicos como Drácula ou Frankenstein e prefere apostar em uma ambientação mais contemporânea. Méritos do excelente roteiro de Schaffer e da direção segura de Hardy, que conseguem construir um clima angustiante e recheado de culpa cristã e insanidade, além de contarem com um ótimo trabalho de cenografia e trilha sonora competentemente esquisita do músico folk Paul Giovanni.
Cenas de grande beleza plástica com um toque de estranheza (atentem para as cabeças de animais) permeiam toda a narrativa, com uma lentidão calculada que contrasta com a tônica atual, mais frenética e agitada; a naturalidade com que os habitantes da ilha praticam atos esquisitos assusta mais do que qualquer corte rápido ou efeito especial. Bons exemplos são o próprio Festival, bem tétrico e os olhares significativos trocados pelos nativos sempre que o policial reto como uma flecha aparece em algum lugar ou faz alguma pergunta. Destaco ainda a cena onde Willow dança e canta para seduzir o pobre Howie com a atriz Britt Ekland fazendo o que faz melhor - ser bonita e gostosa (apesar da dublê de corpo para as partes onde ela está de costas; falta bunda, senhoras e senhores) e o encontro do sargento com o excêntrico lorde.
O que nos leva à segunda grande força do filme, depois da excelência do roteiro; a solidez das atuações de Woodward e Lee, dois lados da mesma moeda. Principalmente Lee (que trabalhou de graça), aqui em uma das melhores atuações da sua carreira, simplesmente perfeito como Summerisle; o descendente de nobres europeus se tornou uma lenda viva da profissão, com uma carreira recheada de papéis marcantes, mas ainda considero este um de seus maiores personagens. A fria condescendência para com o personagem de Woodward, tratando-o como uma criança mimada e teimosa por não compartilhar de suas crenças amalucadas e anacrônicas, em pleno século XX, é um momento marcante do cinema fantástico, bem como a cena final do Festival, onde somos apresentados finalmente ao Homem de Palha; é de roer as unhas, caros leitores.
A produção, ainda, tem uma história muito bacana. Depois de finalizada e montada, foi enviada para o produtor americano Roger Corman, rei do filme B. O estúdio inglês, que já havia sido convencido a bancar o filme de má vontade, foi vendido para um grupo que tratou com absoluto descaso o resultado de tanto trabalho e acabou perdendo todas as latas de negativos, que acabaram indo para o lixão junto com os objetos descartados pelos novos donos do pedaço e acabou virando asfalto para pavimentar uma nova estrada para a sede do estúdio; desesperados, os realizadores tentaram encontrar o material, sem sucesso.
Corman ligou então para Hardy para perguntar se o diretor ia querer de volta o filme, vez que o acordo de distribuição nos EUA não vingou; quase em êxtase, ele disse que sim. Enfim lançado no Reino Unido, o ator Christopher Lee começou a ligar para seus amigos críticos de cinema, pedindo que fossem assistir; se necessário, ele pagaria a entrada do próprio bolso. Não foi preciso, os críticos adoraram, o filme fez enorme sucesso, ganhou prêmios e marcou toda uma geração na Europa.
Depois de tantos percalços, mais um para a rica história de “O Homem de Palha”: sofreu uma refilmagem safada e picareta no ano passado, chamada “O Sacrifício”, estrelada por Nicolas Cage; amigos leitores, esse remake canalha não vale a unha podre do dedão do pé gangrenado do original, nem percam seu tempo. Prefiram esta aqui, que é um programa imperdível para os fãs de terror e cinéfilos em geral.

Elenco: Edward Woodward (Sargento Howie), Christopher Lee (Lord Summerisle), Diane Cilento (Miss Rose), Britt Ekland (Willow), Ingrid Pitt (Bibliotecária), Lindsay Kemp (Alder McGregor), Russell Waters (Mestre do Porto), Aubrey Morris (Jardineiro / Coveiro), Irene Sunters (May Morrison), Walter Carr (Professor), Ian Campbell (Oak), Roy Boyd (Broome), Penny Cluer (Gillie), Geraldine Cowper (Rowan Morrison), Donald Eccles (T.H. Lennox), Myra Forsyth (Sra. Grimmond), John Hallam (P.C. McTaggert), Alison Hughes (Noiva de Howie), Charles Kearney (Açougueiro), Fiona Kennedy (Holly), John MacGregor (Baker), Jimmy Mac Kenzie (Briar), Lesley Mackie (Daisy), Jennifer Martin (Myrtle Morrison), John Sharp (Doutor Ewan).

Diretor: Robin Hardy; Roteiro: Anthony Shaffer, baseado no livro “Ritual”, de Anthony Shaffer e David Pinner; Produção: Peter Snell; Trilha Sonora: Paul Giovanni; Direção de Fotografia: Harry Waxman; Montagem: Eric Boyd-Perkins; Seleção de Elenco: Maggie Cartier; Direção de Arte: Seamus Flannery; Figurinos: Sue Yelland; Maquiagem: Jan Dorman e W.T. Partleton; Som: Robin Gregory, Bob Jones e Vernon Messenger.

Classificação:
!!!!

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