domingo, fevereiro 11, 2007

Mortos de Fome

Mortos de Fome (Ravenous, RCH/ING/EUA, 1999 – 100 min.)

“Você é quem você come.”

Jack Boyd (Guy Pearce) é o único sobrevivente do massacre de seu pelotão durante a Guerra do México e, por isso, é promovido a capitão. Só que o método utilizado para sua sobrevivência não foi muito apreciado pelos seus superiores e ele é transferido para um forte no limite das fronteiras das Sierras Nevadas. O local é comandado pelo Coronel Hart (Jeffrey Jones) com um efetivo reduzido e recheado de figuras estranhas, como o religioso Toffler (Jeremy Davies), o doidão Cleaves (David Arquette), o bebum Knox (Stephen Spinella) e o exército-de-um-homem-só Reich (Neal McDonough). Para completar a mistura indigesta, um casal de irmãos índios, o caladão George (Joseph Running Fox) e Martha (Sheila Tousey), que servem como guias e empregados do forte.
Um dia, em uma patrulha, os soldados encontram um homem quase morto, Colqhoun (Robert Carlyle) que conta uma história aterrorizante de sobrevivência e luta, onde todos seus companheiros morreram ou foram assassinados. Levado para o forte, Colqhoun é apontado por George como sendo o Weendigo, lenda indígena que conta de um homem, que após provar carne humana, recebe a força do devorado e fica com poderes de regeneração física impressionante, embora sua fome aumente cada vez mais.
Os eventos se desenrolam e Boyd tem que superar sua natureza covarde e escolher entre sua sobrevivência ou abraçar a sina do seu inimigo.
Filme diferente e esquisitão, que foge do padrão normal e conta com uma atmosfera opressiva e pesadona, por conta do tema central polêmico e que não agrada a maioria, que é o canibalismo. Só que não se deve levar em conta somente isso, já que o desenvolvimento da trama revela uma abordagem diferenciada de um mito muito utilizado pelo gênero, o do vampiro. Tem muito mais camadas a serem reveladas do que uma primeira visita mostra.
O vampiro é um ser que precisa de sangue de seres vivos para sobreviver; qual a diferença dessa característica para a vontade de Colqhoun de devorar carne humana para manter seu corpo forte? A necessidade crescente do antagonista de se alimentar dos companheiros traz um viés realista e incômodo ao mito, que perturba ainda mais quando visto assim de forma mais crua e menos fantasiosa; toda a mis-en-scéne imortalizada pelo cinema e pela literatura tornam muito difícil sentir medo real daquela figura retratada. Quem se assusta com um troço que vira nevoeiro, tem que dormir em um caixão, vive num castelão e tem medo de cruzes? De outro lado, ter alguém igual a você te perseguindo para, literalmente, te devorar, deixa muito mais arrepiado e assustado do que qualquer coisa que eu possa pensar.
Para completar, um trabalho exemplar do ator escocês Robert Carlyle colabora bastante para deixar seu personagem ainda mais repugnante e medonho. Como seu contraponto, Guy Pearce compõe com competência seu Capitão Boyd, relutante e covarde até o primeiro naco de carne devorada.
O filme tem alguns problemas no seu segundo ato, com algumas reaparições absurdas, compensando tudo em um clímax sangrento e bem movimentado. Outro ponto negativo para as atuações de Jeremy Davies, chato como sempre, murmurando suas falas e de David Arquette, irritante com suas risadinhas constantes e sem sentido, além de falhas no desenvolvimento dos outros personagens, com mudanças de comportamento abruptas para conseguir terminar a história.
Mas, é dirigido com competência por Bird, fugindo do seu padrão sóbrio e sério de direção, deixando sua imaginação fluir com naturalidade e mantendo o ritmo constante, com alguns toques interessantes de humor, além de uma trilha sonora esquisita e deslocada de Damon Albarn (do grupo Blur e do Gorillaz), que contribui para o clima geral de insanidade.
Assistam, e garanto que nunca mais aquele pratão de carne assada com legumes vai ter a mesma cara.

Elenco: Guy Pearce (Capitão Jake Boyd), Robert Carlyle (Coronel Ives / F.W. Colqhoun), David Arquette (Soldado Cleaves), Jeremy Davies (Soldado Toffler), Jeffrey Jones (Coronel Hart), John Spencer (General Slauson), Stephen Spinella (Tenente Knox), Neal McDonough (Soldado Reich), Joseph Running Fox (George), Bill Brochtrup (Lindus), Sheila Tousey (Martha).

Diretor: Antonia Bird; Roteiro: Ted Griffin; Produção: Adam Fields e David Heyman; Produção Executiva: Tim Van Rellim; Trilha Sonora: Damon Albarn, Michael Nyman e Milton “Quiltman” Sahme; Direção de Fotografia: Anthony B. Richmond; Montagem: Neil Farrell; Seleção de Elenco: Kerry Barden, Billy Hopkins e Suzanne Smith; Design de Produção: Bryce Perrin; Direção de Arte: Marco Niro, Adam O’Neill, Ricardo Spinacé e Karel Vacek; Cenografia: Jiri Zucek; Figurinos: Sheena Napier; Maquiagem: Fae Hammond e Raúl Sarmiento; Som: James Bolt, Stanley Kastner, John A. Larsen, Roger Mitchell e Adrian Rhodes; Efeitos Sonoros: Jack Whittaker; Efeitos Especiais: Terry Glass; Efeitos Visuais: John Swinnerton e Pat Wong.

Classificação:
!!!

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