quinta-feira, janeiro 18, 2007

O Labirinto do Fauno

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno / Pan’s Labyrinth, ESP/MEX/USA, 2006 – 119 min.)

“A Inocência tem um poder que o Mal não consegue conceber.”

Após a consolidação da ditadura de Franco na Espanha, Ofélia (Ivana Baquero) e sua mãe Carmen (Ariadna Gil), viajam para se encontrarem com o capitão Vidal (Sergi López), novo marido de Carmen, no interior do país, para onde ele foi enviado para esmagar a incipiente rebelião contra o regime; frio, impiedoso e violento, Vidal quer as duas por perto quando Carmen der à luz ao seu filho, do qual ela está em estágio avançado de gravidez.
Oprimida e preocupada com a saúde fragilizada da mãe, que se mantém a duras penas com a ajuda prestimosa do médico local Ferrero (Alex Ángulo) e da empregada Mercedes (Maribel Verdú), Ofélia encontra dentro da propriedade um antigo labirinto, habitado por uma criatura fantástica, chamada Pan (Doug Jones, sob pesada maquiagem) que a informa da verdade: a menina é a reencarnação da Princesa do Mundo Subterrâneo e precisa provar seu merecimento realizando três tarefas.
Dividida entre a realidade terrível e a talvez fantasia não menos assustadora, Ofélia precisará de toda a sua coragem para chegar até o final de sua jornada.
Uma fábula para adultos com visual deslumbrante e macabro, o filme é uma mistura ousada de filme político com terror, onde a ambigüidade dos personagens somente reforça a sensação de desorientação e desamparo, perante situações limite onde não podemos contar com nada além de nossas próprias forças internas.
O diretor Del Toro, especializado em filmes fantásticos, realizou aqui sua obra mais incisiva, tocante, aterrorizante e triste. Auxiliado pela trilha sonora melancólica e cheia de nuances de Javier Navarrete e uma fotografia primorosa de Guillermo Navarro (com tons carregados de azul e laranja, além de uma granulação – aquela impressão de tela enfumaçada – sufocante), a história envolve o espectador como poucas vezes vi em produções do gênero que ainda conta com efeitos especiais e de maquiagem de alto nível, brincando o tempo todo com a pergunta: “será que é verdade?”.
O elenco se entregou de corpo e alma à proposta do diretor e temos diante de nossos olhos um desfile homogêneo de atuações interessantes e profundas, com destaque para: a protagonista Baquero, caso raro de atriz infantil que possui alta expressividade e profundidade emocional (méritos para a direção de atores competente de Del Toro); Sergi Lopez, experimentado ator espanhol com uma sólida carreira na Europa e que compõe um tipo inesquecível para a galeria ilustre dos piores vilões do cinema e o trabalho simplesmente fantástico de Doug Jones como o Fauno. Escondido pela maquiagem e roupas especiais, o ator inglês passa toda a ambigüidade angustiante do guia de Ofélia somente com as inflexões de voz (detalhe que o ator não fala espanhol e teve que decorar suas falas foneticamente) e o gestual detalhado.
Destaque para as tarefas que a garota tem que cumprir (principalmente a segunda, onde ela encontra o Homem Pálido – outra vez Doug Jones – um ser que possui os olhos nas palmas das mãos), todas momentos de puro terror; e as seqüências onde vemos a atuação profissional do capitão, que chocam pela frieza e pela utilização da violência mais gráfica e sangrenta.
Hoje em dia, parece que os cineastas jovens mais interessantes estão fora do eixo de Hollywood. Del Toro faz parte de um trio apelidado de “Los Três Amigos”, formado por ele, Alfonso Cuarón (de “Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban” e do excelente “Filhos da Esperança”) e Alejandro Iñarritu (de “Babel”, um dos favoritos ao Oscar). Sempre se auxiliando mutuamente, onde cada um faz alguma coisa nos filmes do outro, seja produzindo, auxiliando no roteiro ou nos efeitos, o trio mexicano tem que ser observado com atenção para os próximos anos, muita coisa boa ainda vai sair daí.
Um espetáculo visual e emocional, “O Labirinto do Fauno” é um dos finalistas para abiscoitar uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro (numa aposta ousada e bem-vinda da Academia de Cinema mexicana) e disputou a Palma de Ouro em Cannes no ano passado.
Vejam, se encantem e pensem nas mensagens que ficam nas entrelinhas (com mais uma prova de respeito, o roteiro não se preocupa em explicar tudo, deixando muito do trabalho para ser feito pela audiência). Não percam.

Elenco: Ivana Baquero (Ofélia), Sergi López (Capitão Vidal), Ariadna Gil (Carmen), Doug Jones (Pan / O Homem Pálido), Maribel Verdú (Mercedes), Alex Ângulo (Dr. Ferrero), Manolo Solo (Garcez), Cesar Vea (Serrano), Roger Casamajor (Pedro), Ivan Massagué (El Tarta), Gonzalo Uriarte (Francês), Eusébio Lázaro (Padre), Francisco Vidal (Cura), Pepa Pedroche (Conchita), Maria Jesus Gattoo (Jacinta), Ana Sáez (Paz), Chani Martin (Trigo), Jose Luis Torrijo (Sargento Bayona), Federico Luppi (Rei).

Diretor: Guillermo del Toro; Roteiro: Guillermo del Toro; Produção: Álvaro Augustín, Bertha Navarro, Frida Torresblanco, Victor Albarrán, Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón; Produção Executiva: Belén Atienza e Elena Manrique; Co-produção Executiva: Edmundo Gil; Trilha Sonora: Javier Navarrete; Direção de Fotografia; Guillermo Navarro; Montagem: Bernat Vilaplana; Seleção de Elenco: Sara Bilbatúa; Design de Produção: Eugenio Caballero; Figurinos: Lala Huete e Rocío Redondo; Maquiagem e Efeitos de Maquiagem: José Quetglás e Arjen Tuiten; Som: Sergio Diaz, Martin Hernandez e Roland N. Thai; Efeitos Sonoros: Dana Blanco, Alejandro Quevedo e Roland N. Thai; Efeitos Especiais: Reyes Abades e Sergio Sandoval; Efeitos Visuais: Everett Burrell, Wendy Hubert, Edward Irastorza e Fernanda Plana.

Classificação: !!!!


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