terça-feira, novembro 14, 2006

Série Stephen King 16 / A Hora da Zona Morta

A Hora da Zona Morta (The Dead Zone, EUA, 1983)

“Em sua mente, ele tem o poder de ver o futuro; em suas mãos, ele tem o poder de mudá-lo.”

Johnny (Christopher Walken) está com tudo; seu trabalho vai bem (seus alunos o adoram), os problemas financeiros estão ficando para trás e sua paixão pela colega de trabalho Sarah (Brooke Adams) parece ser correspondida e o relacionamento pode dar o próximo passo brevemente. Depois de deixá-la em casa, e receber um convite muito interessante, Johnny decide deixar para mais tarde e saborear o momento. Está amando e ela o ama de volta.
No caminho de volta para sua casa, um motorista de caminhão causa um terrível acidente e o deixa em coma por mais de quatro anos, do qual ele retorna com um inesperado dom: ele pode “ver” coisas ao tocar nas pessoas. Tendo uma recuperação dolorosa pela frente, com cirurgias, fisioterapia, sua mãe Vera (Jackie Burroughs) descendo a ladeira do fanatismo religioso e Sarah casada com outro homem, fenômenos sobrenaturais são a última coisa com que ele se preocupa. O médico Sam Weizak (o grande Herbert Lom) traz um apoio fundamental para esse objetivo, com suas opiniões ponderadas e mente aberta que não desacreditam do dom que Johnny parece ter.
Aos poucos, Johnny vai retomando as rédeas de sua vida nova ao lado do pai, Herb (Sean Sullivan) e voltando a ensinar, com aulas particulares em sua casa, mesmo com as visões se repetindo. Até que, um dia, ao ir fechar um contrato com um novo aluno, Chris (Simon Stuart) e seu pai Roger (Anthony Zerbe), ele conhece um candidato nada ortodoxo ao Senado, Greg Stillson (Martin Sheen). Em um dos comícios de Stillson, que fez seu comitê central em frente de sua casa, Johnny acaba apertando a mão do candidato e tem uma visão que o aterroriza: Stillson, em um futuro possível, será presidente dos EUA e responsável direto por uma tragédia sem precedentes.
Sabendo que suas visões não são definitivas, pois pode agir para mudar o futuro, se assim o quiser, ele se vê em uma posição na qual uma decisão tem que ser tomada: o que você faria se pudesse salvar a humanidade, mas para isso precisasse agir contra todos seus princípios?
Muito bom thriller que busca uma resposta para a famosa pergunta “Se pudesse voltar no tempo, sabendo o que aconteceria depois, você mataria Hitler?”, com Cronenberg controlando sua tendência ao exagero e imagens grotescas (com raros e bons momentos de recaída) para montar uma trama instigante e sóbria, com uma narrativa mais convencional, algo raro em sua carreira; mas, mantendo sempre sua característica principal de não subestimar seu público.
Dois fatores ajudam o filme a manter o interesse: 1) a excelente adaptação de Jeffrey Boam (escritor de grandes sucessos como “Indiana Jones e a Última Cruzada”, “Máquina Mortífera 2 e 3” e “Os Garotos Perdidos” que faleceu prematuramente após sofrer com uma rara doença pulmonar) do complexo e cheio de detalhes livro do mestre Stephen King, onde criou um roteiro que, mesmo retirando ou encurtando muitas das diversas subtramas onde Smith tem que lidar com seu dom, manteve a grande carga dramática da história, sem ignorar o saboroso tempero sobrenatural e 2) a escolha acertada do elenco, onde brilham o esquisitão Walken como o atormentado Johnny Smith e Martin Sheen, dando vida ao tresloucado e violento Stillson, que não deixa nada nem ninguém atravessar seu caminho rumo à presidência (parece que o ator não consegue fugir de papéis onde ou é o próprio ou está próximo do maior mandatário dos EUA).
Dentre as dezenas de adaptações que a obra de King sofreu para o cinema (sofreu é a palavra certa, pois muitas delas jogam fora toda a força das tramas e personagens criados pelo autor em detrimento de exercícios vazios de estilo ou ainda de incompetência mesmo dos realizadores), esta é uma das que mais próxima chegou da alma do livro.
Ignore o visual datado – tenham em mente que o filme é de 1983 –, o título mocorongo em português (mais uma vítima do sucesso de "A Hora do Pesadelo" aqui nas terras tapuias) e a lentidão, nem sempre proposital, de algumas passagens e embarque em um suspense que levanta questões legítimas e muito interessantes. Amém para a inteligência!
O filme ainda gerou uma série de TV, estrelada por Anthony Michael Hall (que teve seu auge ao participar dos filmes "Mulher Nota 1000", "Clube dos Cinco" e "Gatinhas e Gatões", todos da década de 80), que mesmo dando alguns chutes no balde da lógica da trama original se mantém no ar até hoje; salvo engano, o SBT estava mostrando alguns episódios, com o nome "O Vidente", perdidos na madrugada ou tapando buracos nos domingos da emissora. Não sei se continua.

Elenco: Christopher Walken (Johnny Smith), Martin Sheen (Greg Stillson), Brooke Adams (Sarah Bracknell), Herbert Lom (Dr. Samuel Weizak), Tom Skerritt (Xerife Bannerman), Sean Sullivan (Herb Smith), Jackie Burroughs (Vera Smith), Geza Kovacs (Sonny Elliman), Anthony Zerbe (Roger Stuart), Nicholas Campbell (Frank Dodd), Colleen Dewhurst (Sra. Dodd), Simon Craig (Chris Stuart), Roberta Weiss (Alma Frechette), Barry Flatman (Walt).

Diretor: David Cronenberg; Roteiro: Jeffrey Boam, baseado no livro “The Dead Zone”, de Stephen King; Produção: Debra Hill; Produtor Associado: Jeffrey Chernov; Produção Executiva: Dino de Laurentiis; Trilha Sonora: Michael Kamen; Diretor de Fotografia: Mark Irwin; Edição: Ronald Sanders; Seleção de Elenco: Deirdre Bowen, Janet Hirshenson e Jane Jenkins; Design de Produção: Carol Spier; Direção de Arte: Bárbara Dunphy; Cenografia; Tom Coulter; Figurinos: Olga Dimitrov; Maquiagem: Jenny Arbour e Shonagh Jabour; Som: David Lewis Yewdall, Devon Heffley Curry, Gregg Landaker, Steve Maslow e Bill Varney; Efeitos de Som: James Guthrie; Efeitos Especiais: Jon G. Belyeu; Efeitos Visuais: Michael Lennick.

Classificação:
!!!

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