sexta-feira, agosto 18, 2006

Hannibal

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Hannibal (Hannibal, EUA/ING, 2001)

“Quebre o silêncio.”

Continuação, mais de dez anos depois, do mega-sucesso “O Silêncio dos Inocentes”.
Clarice Starling (Julianne Moore) continua sua carreira como agente do FBI e, quando uma batida de rotina vira uma tragédia, ela é designada para reabrir o caso do Dr. Hannibal “O Canibal” Lecter (Anthony Hopkins), que a ajudou a pegar o assassino Buffalo Bill no filme de 1991 e está foragido há mais de uma década.
O caso foi reaberto por pressão de Mason Verger (Gary Oldman, irreconhecível), a única vítima do bom doutor que sobreviveu e tem como único objetivo em seu arremedo de vida gastar suas dezenas de milhões de dólares para se vingar, mesmo que tenha que destruir a carreira de Starling, com a ajuda do inescrupuloso membro do departamento de Justiça Paul Krendler (Ray Liotta).
Nesse meio tempo, um zeloso e desesperado policial de Florença, Pazzi (Giancarlo Giannini) desconfia que o refinado novo curador da bilbioteca de Dante Alighieri, o Dr. Fell, é ninguém mais ninguém menos do que o próprio Dr. Lecter. Atrás da recompensa paga por Mason, Pazzi avisa o demente que Lecter está em Florença, forçando-o a fugir da Itália e ir atrás de Clarice e de Verger.
Apesar das críticas negativas que a maioria escreveu, sinto discordar. Adoro este filme, pois houve a acertada decisão de deslocar o foco narrativo de Clarice para Lecter, dando a chance de Hopkins brilhar mais uma vez. O personagem é simplesmente fascinante, pois mistura todo o refinamento e erudição possíveis com um instinto assassino deplorável, além de, é claro, o canibalismo. Recheado de simbolismo, o ato de devorar a carne de um semelhante combina com a personalidade de Lecter. Este se considera uma espécie de juiz de quem merece ou não merece viver e ao comer a carne de suas vítimas, ele considera que sua missão está sendo cumprida a contento; afinal, como ele mesmo disse ao enfermeiro Barney, “eu prefiro comer os rudes” e de grosseria este mundo está cheio, não é mesmo?
Cumpre destacar a troca de atrizes para o personagem de Clarice, saindo Jodie Foster (do papel que lhe rendeu um Oscar) e entrando Julianne Moore. A ruiva defende bem o papel, embora exagere um pouco na frieza e distanciamento emocional da agente Starling, que às vezes fica parecendo uma máquina; no entanto, demonstra muito bem as emoções violentas de Clarice nas cenas mais fortes e mais tristes, tendo sido uma boa escolha – além de ser lindíssima e ter química com Hopkins.
Mais um destaque do elenco é Gary Oldman, sob pesadíssima maquiagem (extremamente competente, aliás), como o piradão Mason Verger e Ray Liotta, simplesmente asqueroso no papel do carreirista Paul Krendler.
O roteiro, escrito a quatro mãos pelos talentosos David Mamet (“Os Intocáveis”, “A Trapaça”, entre outros) e Steven Zaillian (“Missão Impossível”, “A Lista de Schindler”) conseguiu a façanha de ser melhor do que o livro que o originou. Thomas Harris viajou demais e escreveu um romance grotesco e cheio de cenas repugnantes, sem qualquer preocupação em fazer muito sentido, deixando os personagens quase que caricaturas doentias de si mesmos. Os roteiristas reverteram o quadro e, embora deixem várias cenas fortes e bizarras, entregaram uma história mais coerente e palatável ao grande público, em um trabalho cheio de méritos.
Méritos que devem ser divididos fraternalmente com Ridley Scott. Com talento comprovado para contar histórias, apurado senso visual e excelente direção de atores, o diretor inglês fez um de seus melhores filmes; com uso interessante de câmera lenta e enquadramentos estilizados, a trama se desenvolve com naturalidade e fluência; somente perdendo um pouco do rumo, curiosamente, nas cenas mais malucas, como o ataque dos javalis e a ceia macabra entre Lecter, Krendler e Starling.
Com um final irônico e perturbador, é uma sequência digna do filme de 1991 e que ajudou a perpetuar o mito do psiquiatra canibal no inconsciente coletivo, tornando-o um dos mais queridos vilões da história do cinema.
Teve ainda mais uma “prequel”, em 2002, com a refilmagem de “Dragão Vermelho”, de 1986, a primeira aparição de Lecter no cinema, mais uma vez com Hopkins no papel central.


Elenco: Anthony Hopkins (Dr. Hannibal Lecter), Julianne Moore (Clarice Starling), Ray Liotta (Paul Krendler), Zeljko Ivanek (Cordell), Frankie Faison (Barney), Giancarlo Giannini (Inspetor Francesco Pazzi), Francesca Neri (Allegra Pazzi), Enrico Lo Verso (Gnocco), Ivano Marescotti (Carlo) e Gary Oldman (Mason Verger).

Diretor: Ridley Scott; Roteiro: Stephen Zaillian e David Mamet, baseados no livro “Hannibal”, de Thomas Harris; Produção: Dino de Laurentiis, Martha de Laurentiis e Ridley Scott; Produtores Associados: Terry Needham e Lucio Trentini; Produção Executiva: Branko Lustig; Trilha Sonora: Hans Zimmer; Direção de Fotografia: John Mathieson; Edição: Pietro Scalia; Seleção de Elenco: Louis Di Giaimo; Design de Produção: Norris Spencer; Cenografia: Crispian Sallis; Direção de Arte: David Crank; Figurinos: Janty Yates; Maquiagem: Giancarlo De Leonardis, Elisabetta De Leonardis e Fabrizio Sforza; Efeitos de Maquiagem: Greg Cannom, Mary Kim, Wendy McNeny, Russell Shinkle, Brian Sipe e Wes Wofford; Som: Per Hallberg, Karen M. Baker, Doug Hemphill e Paul Massey; Efeitos Sonoros: Christopher Assells, Dino Rimuro, Dan Hegeman, Scott Sanders e Jon Title; Efeitos Especiais: Renato Agostini, Kevin Harris, Art Pimentel e Daniel Acon; Efeitos Visuais: Tim Burke e Laurent Hugueniot.

Classificação: !!!!

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