domingo, junho 04, 2006

Terror na Ópera

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Terror na Ópera (Opera / Dario Argento’s Opera / Terror at the Opera, ITA, 1987)

"Uma estrela nasceu hoje. Ela viverá para ver o amanhã?"


Uma bela cantora lírica, Betty (Christina Marsillach), com traumas em seu passado (não sabe se foi testemunha ou não do assassinato da mãe, também cantora, morta por estrangulamento) ensaia duro esperando uma oportunidade, escudada pela empresária Mira (Daria Nicolodi). Um dia, depois de mais um piti da estrela Mara Czekova (Antonella Vitale) em um ensaio da ópera “Lady Macbeth”, de Verdi, contra o diretor Marco (Ian Charleson) e os corvos participantes da montagem, a diva é atropelada e morta na rua em frente ao teatro. É a chance que Betty esperava e ela é efetivada como atriz principal pelo realizador da montagem, Badini (Antonio Juorio). Após a estréia, com grande sucesso, Betty descobre que é perseguida por um assassino encapuzado que mata sem piedade quem quer que se aproxime, cometendo os crimes em frente dela, querendo que a artista saiba disso. A polícia está perplexa, na pele do Inspetor Santini (Urbano Barberini) e está sempre um passo atrás do maníaco, que segue matando. Mas Marco tem um plano para identificar o assassino e, finalmente, pegá-lo. Mas uma grande surpresa aguarda os personagens.
Eu considero o filme uma versão informal de “O Fantasma da Ópera”, onde Argento, grande realizador de terror, mostra a sua visão da história de Gaston Leroux. Claro que existem muitos elementos que diferenciam o roteiro desta produção, comparando com a famosa história do gênio louco que protege uma jovem cantora na Ópera de Paris, mas existem muitas similaridades que não escapam a um olhar mais atento. Mas aqui não cabe explicitar essas similaridades; aguardem comentário de “O Fantasma da Ópera” no outro blog.
O filme é um deleite para o fã de terror. O mestre italiano fez aqui um dos melhores filmes da fase policial de sua carreira, onde não retratava o sobrenatural com tanta constância. Mas Argento tem características marcantes que elevam o gênero a outro patamar, utilizando a violência (que é farta e chocante pela crueza, mesmo estilizada ao máximo; a faca entrando pela garganta até aparecer pela boca aberta do personagem Stefano e a “cirurgia” da figurinista são exemplos) como forma de contar uma história de uma maneira que muito poucos conseguiram. Um bom exemplo disso é a forma que o maníaco utiliza para obrigar Betty a assistir seus atos; um pedaço de fita adesiva com agulhas grudadas, fazendo com que o ato de piscar ou fechar os olhos fira a pálpebra. É algo simples, mas carregado de significado: olhe ou perca a visão. É de arrepiar o sadismo por trás...
O diretor abusa de super-closes (como nos olhos dos corvos e na ponta da adaga do assaassino), da câmera subjetiva (onde a câmera atua como se fosse os olhos de um dado personagem) e de longos travellings (movimento onde a câmera passeia pelos ambientes), acentuando o clima onírico e delirante que é a sua marca registrada. Em diversas ocasiões não sabemos exatamente onde estamos. A composição de diversas cenas acentua o ambiente de pesadelo e irrealidade, como, por exemplo, quando um travesseiro cai pela janela, espalhando suas penas pela rua; reparem no efeito que o recheio de penas causa ao ser soprado pelo vento. É realmente lindo. O uso de animais, no caso corvos, também é interessante.
Apesar da excelência técnica, o filme tem alguns defeitos. O principal é a falta de experiência e de talento de parte do elenco, como a atriz principal, Christina Marsillach e a figurinista, que acabam exagerando na atuação e causando uma certa irritação; e o anti-clímax no teatro, que quebra o envolvimento do espectador de tal forma que o verdadeiro final fica sem força, apesar de surpreendente. E a trilha sonora, que conta com diversos roqueiros de respeito, acaba ficando deslocada demais em algumas cenas prejudicando o desenvolvimento da trama.
No entanto, diversas cenas comprovam a influencia de Argento no cinema fantástico, como a morte da empresária a bala (cena igual foi utilizada no recente “Jogos Mortais 2”) e o uso constante de chuva para acentuar o desespero dos personagens.
Mesmo contando com os defeitos apontados acima, não há nada que comprometa o resultado final. O diretor italiano é muito sub-representado em nosso mercado e cada oportunidade de apreciar seu trabalho marcante e original é bem-vinda. Para quem gostar do filme, sugiro ainda que assista “Suspiria” (a obra-prima de Argento, já disponível em DVD) e “Profondo Rosso”.

Elenco: Christina Marsillach (Betty), Ian Charleson (Marco), Urbano Barberini (Inspetor Alan Santini), Daria Nicolodi (Mira), Coralina Cataldi Tassoni (Giulia), Antonella Vitale (Mara Czekova), William McNamara (Stefano), Bárbara Cupisti (Senhora Albertini), Antonio Juorio (Badini), Carola Stagnaro (Mãe de Alma), Francesca Cassola (Alma), Maurizio Garrone (Maurizio, o treinador de corvos), Cristina Giachino (Maria, assistente de direção), György Gyõriványi (Miro), Bjorn Hammer (Tira #1), Peter Pitsch (Assistente de Mara Czekova), Sebastiano Somma (Tira #2), Michele Soavi (Inspetor Daniele Soave) e Dario Argento (Narrador – versão italiana).

Diretor: Dario Argento; Roteiro: Dario Argento e Franco Ferrini (roteiro) e Dario Argento (história); Produção: Dario Argento; Produção Executiva: Ferdinando Caputo; Trilha Sonora: Cláudio Simonetti, com a participação de Brian Eno, Roger Eno, Daniel Lanois e Bill Wyman; Direção de Fotografia: Ronnie Taylor; Edição: Franco Fraticelli; Design de Produção: Davide Bassan; Figurinos: Francesca Lia Morandini; Maquiagem: Ferdinando Merolla e Rosário Prestopino; Som: Nick Alexander e Giancarlo Laurenzi; Efeitos Especiais: Renato Agostini, Sergio Stivaletti e Germano Natali.

Classificação: !!!!

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