quarta-feira, maio 31, 2006

Wolf Creek - Uma Viagem Ao Inferno

wolfcreek2
Wolf Creek – Uma Viagem ao Inferno (Wolf Creek, AUS, 2005)

“Como pode ser encontrado se ninguém sabe que você desapareceu?”

Três mochileiros, um australiano, Ben (Nathan Phillips) e duas inglesas, Kristy Earl e Liz Hunter (Kestie Morassi e Cassandra Magrath), após se conhecerem em uma festa e passarem alguns dias de curtição junto com outros amigos, decidem visitar uma cratera de meteoro no meio do “outback” (deserto) australiano chamada Wolf Creek – um local que existe de verdade, só que com o nome de Wolfe Creek – só os três.
As paisagens vão ficando cada vez mais desoladas, à medida que os viajantes se aproximam da cratera e os sinais de presença humana rareiam. Os amigos visitam o ponto turístico (realmente, uma paisagem estonteante), mesmo incomodados com a sensação de isolamento e os constantes boatos de presença alienígena na região, explicitados principalmente nas conversas ao pé do fogo que os três amigos têm durante a viagem até Wolf Creek.
Ao retornarem da cratera (que fica a uma distância de três horas de caminhada desde o local de estacionamento, tanto para ir quanto para voltar, num total de seis horas), percebem que os relógios pararam e o carro não liga. Cansados e frustrados, são ajudados no meio da noite por um simpático caipira, Mick (John Jarratt), que reboca o carro dos mochileiros até uma mina de carvão abandonada onde ele vive. Depois de uma conversa em volta da fogueira, os amigos dormem e aí...
Excelente filme independente do australiano Greg McLean, em sua estréia em cinema de longa-metragem, onde o rapaz escreveu, dirigiu e produziu, demonstrando enorme habilidade em criar tensão e envolver o espectador com o destino dos protagonistas.
McLean apostou em um longo preâmbulo (quase 1 hora de projeção) antes de detonar um pesadelo que choca pela crueza e senso de realidade impresso nos dissabores sofridos pelos três amigos. Ao fazer essa introdução longa, o diretor trouxe os espectadores para perto do grupo, se identificando com eles. O que torna a última parte do filme ainda mais estarrecedora e assustadora, pois você se sente na pele, acha que aquilo está acontecendo com a gente e sofre com as agressões impostas pelo personagem do ator John Jarratt a Ben, Liz e Kristy. E como essas agressões são complicadas de assistir; vão desde surras e estupros até tiros pelas costas, nem sempre mostradas explicitamente o que deixa tudo ainda pior.
O que merece destaque é a excelente performance do quarteto principal, em especial do veterano Jarratt; seu personagem é difícil de interpretar pela extrema crueldade e sadismo, ainda mais incômodas pela sensação de que aquilo tudo que Mick faz o diverte imensamente e ele nem vê como crime ou maldade – é um fato da vida para o caipira: ou você mata ou morre, e ele prefere matar. O trio de jovens segura bem personagens com emoções extenuantes de serem interpretadas como medo, raiva e perplexidade, de forma constante, algo sempre desgastante emocional e fisicamente.
Um grande pequeno filme, onde fica clara a falta de grana dos realizadores, compensada com toneladas de criatividade e jogo de cintura. Por exemplo, nenhuma cena do roteiro estava prevista para ser rodada com chuva ou tempo nublado, mas pela impossibilidade de estender o cronograma de filmagem pelo orçamento apertado, o roteiro foi sendo adaptado às condições climáticas das locações e contribuiu ainda mais para a tensão quase insuportável que permeia o desenrolar da trama. Outro aspecto que ajuda a criar o clima pretendido são as estatísticas trazidas pelo diretor no começo da produção, falando das mais de 30.000 (trinta mil) pessoas que desaparecem todo ano na Austrália, etc, dando um aspecto ainda mais documental a tudo, ajudado pela opção de filmar em HD digital com câmera na mão e a famosa frase “Baseado em fatos reais”. Dá até arrepio!
Ainda nos aspectos técnicos, uma boa edição, trilha sonora adequada e não invasiva (pelo menos UM condenado que não tenta dar susto com acordes altos! Amém, Senhor!), direção de arte e cenários bem sujos e excelente fotografia, tanto diurna quanto noturna, dando bem a real imensidão do outback australiano e a terrível sensação de isolamento que as enormes planícies e montanhas dão ao viajante.
Na tradição de “O Massacre da Serra Elétrica”, esta produção é um deleite para qualquer fã. Somente acredito que haveria uma melhor carreira nas bilheterias com uma campanha de marketing mais cuidadosa; se não tivesse entregado de bandeja no cartaz e no trailer o tema do filme, seria ainda mais assustadora a experiência de assisti-lo, pois o espectador iria com o espírito desarmado e estaríamos diante de um clássico instantâneo, como aconteceu com “A Profecia” e “O Exorcista”; da forma que foi vendido, ficou restrito ao mundinho dos que gostam de filmes de terror apenas.

Elenco: John Jarratt (Mick Taylor), Nathan Phillips (Ben Mitchell), Kerstie Morassi (Kristy Earl) e Cassandra Magrath (Liz Hunter).

Diretor: Greg McLean; Roteiro: Greg McLean; Produção: Greg McLean e David Lightfoot; Co-produção: Matt Hearn; Produção Executiva: Matt Hearn, David Lightfoot, George Adams, MartinFabinyi, Michael Gudinski, Gary Hamilton e Simon Hewitt; Trilha Sonora: François Tétaz; Direção de Fotografia: Will Gibson; Edição: Jason Ballantine; Design de Produção e Direção de Arte: Robert Webb; Maquiagem: Fiona Rhees-Jones e Jennifer Lamphee; Efeitos de Maquiagem: Charmaine Connelly e Rick Connelly; Som: Pete Best e Peter D. Smith; Efeitos Sonoros: Tom Heuzenroeder; Efeitos Visuais: Mark Chataway e Marty Pepper.
Classificação:
!!!!

Nenhum comentário: