quarta-feira, novembro 23, 2005

O Satânico Mr. Frost

O Satânico Mr. Frost (Mr. Frost, ING/FRA, 1990)
Um filme interessante, principalmente pela escassez de títulos europeus do gênero fantástico disponíveis ao público brasileiro. O estilo europeu de tentar assustar a audiência é apoiado em climas e nuance sem a mania de querer pregar sustos o tempo todo (em cima de acordes altos de trilha sonora e efeitos especiais), apostando mais no desconforto do que no nojo. Como é o caso deste nosso objeto de análise hoje, uma co-produção franco-inglesa.
Na história, um policial, Felix Detweiller (Alan Bates), visita o que parece ser um milionário recluso conhecido por Mr. Frost (Jeff Goldblum), levado por uma denúncia de dois ladrões de carros. Eles alegam ter encontrado um cadáver dentro do carro do dono da casa. Ao confrontar o calmo e estranho proprietário com as alegações dos bandidos, Felix se surpreende quando este admite ter colocado o corpo no carro.
Ele é preso, e os policiais descobrem a existência de mais 24 corpos enterrados no imenso jardim, todos torturados até a morte, incluindo mulheres, idosos e crianças. Após dois anos trancado, Frost, que até então não tinha dito uma só palavra aos psiquiatras que tentaram descobrir suas motivações, é transferido para o hospital dirigido pelo Dr. Reynhardt, uma autoridade em criminosos insanos.
Chegando lá, Frost decide falar com a Dra. Sarah Day (Kathy Baker), membro da equipe e somente com ela, afirmando ser o próprio Diabo e que desejou mostrar aos humanos que sua presença ainda existe, mesmo num mundo impregnado de ciência e explicações, e que o Mal não pode ser racionalizado. Mesmo relutante (com a ocorrência de diversos incidentes inexplicáveis, todos com a presença ou influência do assassino), a psiquiatra acaba se envolvendo com o que diz o paciente e, num crescendo de tensão, precisa decidir se acredita nele ou não. Será o misterioso Mr. Frost o que diz ser ou apenas é um criminoso inteligente que quer escapar da prisão? E assim nos encaminhamos a um clímax inesperado. Tecnicamente eficiente, com fotografia escura e baseada em cores frias (exceto quando o personagem de Goldblum está presente, numa boa sacada do diretor Setbon e seu fotógrafo Brenguier, quando o ambiente fica carregado de cores quentes, como o amarelo e o laranja), além de atmosfera contida e com trilha sonora discreta, “Mr. Frost” cumpre sua idéia de ser um filme de tensão: temos a tensão sexual entre o trio central; a tensão psicológica em que o assassino mantém todos à sua volta, mesmo sendo absolutamente simpático e fascinante; e, finalmente, a tensão em acreditar ou não no que diz Mr. Frost. O conflito entre fé e ciência sempre rendeu, bem realizado ou não; aqui, apesar de alguns problemas de ritmo, onde a narrativa fica um pouco arrastada, o resultado geral é bom.
O destaque principal vai para a edição do mestre Ray Lovejoy, parceiro de Stanley Kubrick em “2001” e “O Iluminado”, que trabalhou também com James Cameron (Aliens) e Tim Burton (Batman). As características dele estão todas aqui: os longos travellings de câmera pela paisagem, os planos abertos com concentração nos personagens e poucos closes e mudanças abruptas de perspectiva, parecendo que a cena foi filmada inteira, sem cortes. O elenco está OK, com muito boas atuações do trio central (Goldblum – que chegou a ganhar um prêmio de melhor ator em um festival de cinema fantástico –, Bates e Baker), contando com uma boa gama de coadjuvantes, na maioria atores europeus, que não comprometem o desenvolvimento da trama.
Em suma, um bom filme de serial killer, sem ser brilhante, valendo a pena uma visita pelo fã de terror ou apreciador de cinema em geral.
Elenco: Jeff Goldblum (Mr. Frost), Kathy Baker (Dra. Sarah Day), Alan Bates (Felix Detweiller), Jean Pierre Cassel (Inspetor Corelli), Daniel Gélin (Simon Scolari), François Negret (Christopher Kovac), Maxime Leroux (Frank Larcher), Roland Giraud (Dr. Raymond Reyhardt), Vincent Schiavelli (Angelo), Philippe Polet (Roland Day), Boris Bergman (Victor Sabowsky) , Hervé Laudiére (Joseph).
Diretor: Phillippe Setbon; Roteiro: Derry Hall, Brad Lynch, Phillppe Setbon e Louise Vincent; Produção: Xavier Gélin, John Simenon; Produtores Associados: Ron Gell e Jeffrey L. Ringler; Produção Executiva: Michael Holzman, Stéphane Marsil e Claude Ravier; Trilha Sonora: Steve Levine; Elenco: Deborah Brown e Amanda McKee; Direção de Fotografia: Dominique Brenguier; Edição: Ray Lovejoy; Design de Produção: Max Berto; Direção de Arte: Max Berto; Figurino: Judy Shrewsbury; Maquiagem: Pascale Bezon; Som: Mireille Leroy; Efeitos Especiais: Georges Demétrau.

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